segunda-feira, julho 11, 2022

Domingo à tarde

 A minha caminhada higiénica ontem, domingo, 10 de julho, foi cheia de peripécias! Caminhava eu há cerca de meia hora, quando ultrapassei dois indivíduos, cada um mais bêbedo que o outro! Ambos conversavam animadamente, expressando uma felicidade do outro munto. Um caminhava ligeiramente mais à frente que o outro, e falava sempre com grande entusiasmo sem olhar para trás. Falavam em crioulo, mas deu para perceber a animação da conversa. O outro, mais carregado nos anos e na substância que tinha ingerido, precisava de toda a largura da rua para poder caminhar. De vez em quando parecia pedir licença ao chão para cair, mas logo a seguir, endireitava-se de novo quase milagrosamente, e com um impulso renovado, colocava-se novamente em marcha! Eram os dois indivíduos mais felizes encima do planeta.

Continuei a minha caminhada, contente por ter visto alguém verdadeiramente feliz. Cerca de dez minutos depois, num lugar meio ermo, onde me preparava para pagar o meu tributo à terra e regar um arbusto que me parecia cheio de sede, vinha um jovem com cerca de 20 anos de idade com cara de menino de papá. Estava visivelmente transtornado sob o efeito de alguma substância forte, que não me parecia ser álcool, e que fazia um esforço titânico para se manter ereto! Decidiu implicar comigo e seguiu-me durante alguns metros! Fiquei assustado e, escusado será dizer, o dito arbusto ficou, pelo menos por algum tempo mais, sem ser regado.

Na mão carregava eu a minha garrafa de alumínio cheia de água. Estava eu a preparar-me para neutralizar o dito energúmeno, utilizando a garrafa como arma de defesa, quando ele decidiu voluntariamente seguir o seu caminho. Não ganhei para o susto!

Como se não bastasse, já na etapa de regresso, cruzei-me com dois adolescentes que se meteram com uma senhora que passeava o seu cãozinho! Ela era idosa, mas não se deixou intimidar pelos ditos cujos atirando-lhes com os nomes mais coloridos que a língua portuguesa tem, e que não é conveniente recordar aqui, mas que podem ser encontrados no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora! E eram em tal quantidade que poderiam ter causado uma indigestão. Fiquei com a impressão de que se conheciam; talvez vivessem no mesmo bairro, mas a senhora era definitivamente do Norte!

Ao escutar a ladainha, eles deixaram-na e dirigiram-se a mim. Com palavras bem audíveis, mas que eu preferi não escutar; começaram a seguir-me e a dizer entre gargalhadas de gozo, que iam caminhar comigo. Naquele momento pensei que, no mínimo, ia ficar sem o meu telemóvel. Mas logo tive a oportunidade de virar na direção do bairro que estava próximo e imediatamente me aproximei de um grupo de pessoas que conversavam. Foi aí que eu recuperei do incómodo e continuei viagem.

Comecei então a pensar que talvez não tenha sido lá muito boa ideia ter ido caminhar ao domingo à tarde sozinho!

Continuei com a minha caminhada que, nesta altura, já tinha desgastado muito mais calorias do que tinha planeado. Faltava-me ainda cerca de 40 minutos para chegar a casa, e aproveitei ao máximo o resto da caminhada. Quando estava quase a chegar a casa, depois de ter deixado de pensar nos últimos acontecimentos, sai da paragem do autocarro - um espaço vedado à circulação de outros veículos - um carro a toda a velocidade que quase me atropelou! E ainda por cima, um dos passageiros do dito cujo, atirou-me uma data de impropérios que me fizeram doer os ouvidos para o resto do dia. Aparentemente eu devia ter travado para que suas excelências, que vinham a sair de um lugar onde nunca deviam ter entrado, pudessem passar à velocidade de cruzeiro.

Como devem calcular, tive uma tarde de domingo verdadeiramente notável. Às vezes, ter uma vida saudável pode ser verdadeiramente arriscado! Queimar calorias, num domingo à tarde, pode ter efeitos secundários devastadores.

domingo, abril 12, 2020

Ide dizer aos meus irmãos

Vivemos dias de silêncio e de medo! Dias de morte e de incertezas em relação ao futuro. Mas hoje celebramos a ressurreição do Senhor e, por isso, celebramos a esperança. A esperança de que o Senhor está connosco e que, precisamente por isso, não devemos ter medo. A esperança de que, com o Espírito do ressuscitado, seremos capazes de vencer o silêncio e o medo.
Medo e desilusão são os sentimentos que as mulheres, segundo o evangelho de Marcos, sentem quando vêem o sepulcro vazio. Sentem-se paralisadas e, apesar de terem recebido o mandato de ir comunicar a mensagem aos outros discípulos, mantiveram-se em silêncio e “não disseram nada a ninguém” (Mc 16, 7-8). Elas são imagem dos discípulos, que ao longo do caminho que fizeram com Jesus, sempre manifestaram medo, que só Jesus os ajudou a ultrapassar (Mc 4, 41; 6, 50; 9, 6; 9, 32; 10, 32).
Devemos, portanto, pensar na forma como somos chamado a viver a vida nova do Senhor ressuscitado no quotidiano da nossa vida. O mandato de ir para a Galileia, onde Jesus precederá os seus discípulos, é dirigido também a cada um de nós hoje. É na Galileia da nossa vida que devemos viver a vida nova que o senhor ressuscitado quer partilhar connosco e, através de nós, com os que vamos encontrando nos caminhos da nossa vida. E que está bem ter medo, desde que estejamos perto de Jesus, porque com ele venceremos o medo e a tentação de permanecer em silêncio perante a urgência do anúncio.
A Galileia é o lugar onde Jesus iniciou o seu anúncio do reino; aí chamou os discípulos a segui-lo; aí foi sinal da presença do amor de Deus para tanta gente pobre, explorada e marginalizada, seja pelas autoridades políticas seja pelas religiosas; aí Jesus anunciou um reino alternativo questionando e contestando os poderes instalados; um reino de paz, justiça, solidariedade, perdão. Isto é, um reino em que as relações humanas são baseadas no valor que cada tem diante de Deus.
A Galileia são os nossos hospitais, centros de saúde e lares de idosos onde os profissionais de saúde tão generosamente se dedicam a servir o outro e levam em si esta esperança de que o medo e as incertezas não nos podem paralisar. É aí que é mais necessária uma palavra de esperança.
Ao refletirmos sobre a ressurreição de Jesus, somos tentados a ficar a “olhar para o céu” (Atos 1, 11). Isto é, somos tentados a colocar a nossa esperança numa vida para além desta, esquecendo-nos de que é aqui que somos chamados a viver a vida nova do ressuscitado. A esperança na vida eterna é fundamental para o cristão, pois aí seremos acolhidos no eterno abraço amoroso do Pai. Mas essa esperança serve de pouco àqueles que vivem uma vida de sofrimento e de dor neste mundo. E Jesus veio também para que este mundo fosse melhor, porque é neste mundo que a salvação ou condenação de cada um começa.
Na sua homilia de quinta-feira Santa, na Basílica de S. Pedro, o P. Cantalamessa fez-nos um desafio importante: “Deixemos à geração que virá, se necessário, um mundo mais pobre de coisas e dinheiro, mas mais rico de humanidade”. É este o grande desafio que nos é dado viver. Não nos deixemos paralisar pelo medo e pelo desespero! Ele está vivo, sim, e não nos deixa sozinhos.
Então, o convite do Senhor ressuscitado é de continuarmos a fazer caminho com Ele, na Galileia onde nos é dado viver, agora com a força do ressuscitado, porque ele está sempre connosco e nos dá a força para sermos também nós anunciadores da esperança. Nós carregamos connosco a vida nova do ressuscitado, e connosco carregamos também a esperança num mundo melhor que todos somos chamados a construir.
Fazer a experiência do ressuscitado depende da nossa atitude diante do mistério pascal! Com a paixão e morte de Jesus, podemos ficar em silêncio, paralisados pelo medo ou podemos também nós ir “dizer aos [seus] irmãos que partam para a Galileia” (Mt 28, 10); podemos fugir ou regressar ao início do nosso caminho de fé, que é o caminho com Jesus, agora fortalecidos pelo Espírito do ressuscitado. A experiência do ressuscitado dependerá sempre da nossa capacidade de renovar o compromisso de o seguir e, seguindo-o, ser sinal da sua presença viva para aqueles que, como na Galileia daquele tempo, se sentem hoje oprimidos, carenciados, injustiçados.
Assim, Jesus continuará sempre vivo! Vamos também nós para a Galileia continuar o caminho de Jesus e dizer a todos que Ele está vivo. Sim, ressuscitou! Aleluia!

domingo, abril 05, 2020

Viver a Esperança em tempo de pandemia

O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos” (Is 50, 4). Estas são as palavras que dão início à primeira leitura da missa de hoje, domingo da Paixão do Senhor. Ao celebrar a Eucaristia hoje, sozinho como o momento impõe, estas palavras ficaram a ecoar nos meus ouvidos e no meu coração; sim, hoje há tanta gente abatida e sem alento para enfrentar este momento difícil que todos vivemos. Mas é um momento de crescermos todos na esperança.
Não é aquela esperança de que tudo vai ficar bem! Não. Não vai ficar tudo bem. Vai morrer muita gente, vai haver muitas dificuldades a todos os níveis da sociedade, já há e vai haver ainda mais fome e muita gente sem as suas necessidades básicas satisfeitas. Já há e vai haver muito sofrimento humano. Mesmo aqui à nossa porta. Mas é aquela esperança que, embora confinados no pequeno espaço das nossas casas, não nos paralisa, mas torna-nos mais atentos às necessidades dos mais vulneráveis, enfim, nos torna mais solidários.
Na celebração do Domingo da Paixão do Senhor, tradicionalmente chamado Domingo de Ramos, há dois elementos importantes que ressaltam da liturgia e que refletem também o que aconteceu quando Jesus entrou em Jerusalém. Há uma passagem da euforia ao desalento, da exaltação de Jesus como o líder esperado ao abandono desse mesmo Jesus por parte dos seus discípulos. Há a passagem de uma manifestação de união motivada por uma fé entusiasta à mudança de atitude e dispersão daqueles que eram os mais fiéis amigos de Jesus.
A pandemia que nos aflige, veio fazer-nos refletir sobre a vida, a sociedade, e a forma como nós vivemos as nossas relações. Ela não poupa ninguém. Ninguém mesmo. A euforia do consumo e do bem estar que a nossa sociedade nos impunha (parecia que estávamos todos no topo do mundo!), deu lugar ao desalento, à falta de esperança, a uma incerteza medonha. Mas como em todas as crises, são os mais vulneráveis da sociedade que acabam por experimentar as piores consequências.
Alguém tem de ter uma palavra de alento e de esperança! Não a esperança daqueles que sentem a nostalgia de liturgias maravilhosas, com multidões a caminhar pelas ruas de palmas nas mãos, que infelizmente muitas vezes só fazem inchar o ego daqueles que as realizam. É a esperança que vem da fé naquele Jesus que mandou interromper a liturgia porque as relações entre vizinhos são mais importantes (Mt 5, 23-24). A esperança que vem daquele Jesus que nos ensina que, se for necessário, devemos interromper o nosso caminho para a igreja (para a liturgia!) de forma a podermos estender a mão a quem se encontra maltratado à beira do caminho (Lc 10, 29-37). É a esperança que vem da oração silenciosa do nosso confinamento que chega aos ouvidos do Pai (Mt 6, 6).
Neste tempo de dor e de sofrimento, de incerteza e até de desespero para muita gente, há quem pense o contrário. Quando oiço um colega padre dizer que o facto de não se celebrar a Eucaristia é sinal de pouca fé, porque Deus “pode” proteger-nos do corona vírus, mesmo se estivermos todos em contacto físico uns com os outros dentro de uma igreja, fico triste. E apetece-me dizer: não, Deus não pode proteger-nos! Porque Deus deu-nos a nós esse poder. O poder de Deus tem de ser levado à prática no quotidiano daqueles que acreditam em Jesus e de todos aqueles que não tendo fé, acreditam no ser humano e no valor da solidariedade. E o distanciamento social faz parte do exercício desse poder. Por isso, quando cada um está a fazer alguma coisa para melhorar a situação, impedir o alastramento rápido da pandemia, e minimizar o sofrimento humano de tantas irmãs e irmãos nossos, aí está Deus a exercer o seu poder. E para muitos, a única coisa que podem e devem fazer é ficar em casa. Deus poderia ter livrado Jesus da cruz. Mas não o fez, porque em liberdade, os poderes instalados decidiram o contrário.
Quanto à Eucaristia, essa é celebrada hoje pelos profissionais de saúde que servem sem reservas o Cristo presente nos doentes que tem de atender e que para isso renunciam às suas próprias famílias para estarem onde devem estar, na linha da frente, de forma completamente altruísta! A Eucaristia é celebrada hoje nos milhares de voluntários e voluntárias que servem Cristo na pessoa dos sem-abrigo e das famílias carenciadas, cuja única esperança está na chegada de um cireneu que lhes ajude a sentir que não estão sozinhos. A Eucaristia está a ser celebrada naquelas famílias que deixaram de trabalhar e não têm nada para dar de comer aos seus filhos. A Eucaristia é celebrada na pessoa daqueles que generosamente saem dos seu próprio confinamento para levar algo que dê esperança a essas irmãs e irmãos. A Eucaristia é celebrada na pessoa daquele velhinho e velhinha que, sozinhos em suas casas não têm o carinho de ninguém, nem algo para comer nem dinheiro para comprar os medicamentos de que precisam. A Eucaristia é celebrada por tantos filhos e filhas impedidos de ver os seus pais velhinhos e doentes nos lares e em suas próprias casas, ou nos velhinhos que tanto queriam dar um beijo ou um abraço aos seus filhos e netos e não o podem fazer. A Eucaristia está a ser celebrada hoje na pessoa daquelas irmãs e irmãos nossos que morrem sozinhos sem o carinho dum ente querido e sem a possibilidade de ter um funeral digno.
São todos estes que experimentam no quotidianos das suas vidas o caminho de Jesus em direção à cruz. É a entrega desinteressada de tanta gente que deve alimentar a nossa esperança. Neste momento é esta a verdadeira Eucaristia.
Esta semana Santa, não vai terminar na Sexta-feira Santa; Ela termina no Domingo da Ressurreição. Vamos sair mais fortes porque mais solidários! Vamos contribuir para construir um mundo melhor, uma sociedade mais justa e mais fraterna, olhando ao essencial de vida, que é fazer com que as nossas relações sejam mais justas, mais fraternas, mais solidárias e mais humanas. Vamos ser sinais, uns para os outros, da presença de Deus. Assim, todos sentiremos que não estamos sozinhos porque Ele, através de cada um de nós, está presente.

segunda-feira, fevereiro 03, 2020

Desafio dos Pobres III

As paróquias de Camarate e Apelação, no concelho de Loures, estão ao cuidado dos Missionários Combonianos que têm aí uma comunidade de quatro missionários. Dois de nós, eu e o Ir. José Manuel, estamos agora a dar início a um projeto da iniciativa dos nossos superiores provinciais da Europa. O projeto é na área da pastoral social, trabalho com migrantes, comunidades ciganas, justiça e paz.
Ultimamente temos falado muito de periferias e corremos o risco de esvaziar de sentido esta expressão! O objetivo é trazer as periferias para o centro; não para o centro do sistema opressor e egoísta que mata e mantém pessoas numa situação contínua de empobrecimento. Mas é trazer os pobres para o centro das nossas atenções, das atenções das igreja e das autoridades, que têm a responsabilidade de cuidar deles e de lhes proporcionar uma vida digna.
A igreja portuguesa, da qual eu faço parte, deve ter a coragem e a ousadia de levar à prática esta etapa nova da evangelização tão desejada pelo Papa Francisco, e reinventar a linguagem do evangelho de Jesus, isto é, fazer com que o evangelho continue a ser Boa Notícia. O grande desafio que eu sinto como missionário, é o de perceber que Camarate e Apelação são o lugar da missão que o Senhor quer para mim, neste momento da minha vida.
Levar Deus às periferias é a metodologia de Jesus. Ela deve ser também a minha. Como sacerdote missionário sou chamado a ser sinal da presença de Deus, lá onde os pobres vivem e onde Deus parece muitas vezes estar ausente.
Gostaria que o meu ministério sacerdotal fosse o contributo, embora pobre e talvez insignificante, para levar Jesus Cristo às periferias, sejam elas geográficas ou existenciais. Para isso, devo estar presente na vida dos pobres e os pobres devem tornar-se cada vez mais o centro do meu ministério que deve ser sempre um ministério de presença e inserção.

Jesus não chamou ninguém para ser sacerdote, mas sim discípulo. Talvez alguns de nós fiquemos escandalizados com estas palavras. Ele não foi condenado por ter proposto uma liturgia diferente, mas porque tomou partido pelos pobres e convidou um grupo de amigos para o seguirem, e com isso desafiou e provocou os poderosos do seu tempo, incluindo os sacerdotes de Jerusalém. Aliás, Jesus teve alguns problemas com os sacerdotes de Jerusalém, alguns dos quais contribuíram para a sua condenação à cruz. Há uma crítica severa que Jesus faz aos sacerdotes na parábola do bom Samaritano: a liturgia (dever sacerdotal) deve ser subordinada ao serviço ao outro, isto é, fazer-se próximo é mais importante do que a liturgia. E eu devo estar sempre muito atento para não ser objeto da mesma crítica. A liturgia, por mais importante que seja, ou me leva a ser “próximo”, ou então é desprovida de significado.
A questão que eu me coloco muitas vezes é esta: como é que eu estabeleço o equilíbrio entre aquilo que é a pastoral tradicional ou de manutenção, também ela necessária, e os grandes desafios que me são diariamente colocados pelos enormes problemas sociais que afetam a nossa gente e que a fazem sentir-se abandonada por por todos, incluindo Deus?
Partilho convosco estas histórias banais da minha vida e do meu ministério porque elas marcaram profundamente a minha vida de sacerdote missionário. Tive a graça de ter podido partilhar da vida de tanta gente maravilhosa que, através da partilha das suas vidas comigo me ensinaram a ser sacerdote missionário e a descobrir Deus nos acontecimentos simples da vida daqueles que o Senhor foi colocando no meu caminho.

Desafio dos pobres II

Quero agora contar-vos a minha história, com referência a alguns momentos significativos da minha vida missionária e ao modo como o contacto com os pobres me foi moldando como missionário e foi também dando forma ao modo como eu tento viver o meu ministério ao serviço do Reino de Deus.

Missionário na África

Parti para a África, pela primeira vez em 1989, para fazer os meus estudos de Teologia na Faculdade de Teologia da África de Leste, sediada em Nairobi, capital do Quénia. Aí sofri o primeiro grande choque da minha vida, ao deparar-me com uma situação de pobreza extrema que ainda hoje tenho dificuldade em descrever! Enormes bairros de lata, em que as barracas eram feitas de pedaços de cartão e de madeira, com algumas latas pelo meio; aí passava os meus fins de semana; não havia eletricidade, nem água, nem esgotos, etc. Por outro lado, eu vivia no outro extremo da cidade, onde não faltava nada, exceto eletricidade que nos faltou durante três anos, obrigando-nos a estudar à luz da vela ou de um candeeiro a petróleo! Ter estudado Teologia neste contexto, foi talvez uma das maiores graças que o Senhor me concedeu como missionário.
Logo após a minha ordenação sacerdotal em 1995, fui destinado a Nzara, uma missão no Sudão do Sul que se encontrava em guerra! Foi aí que eu fui confrontado com a necessidade de fazer ajustes na minha vida e desaprender alguns conceitos teológicos para aprender a descobrir Deus na precariedade da vida, na vida e na fé de um povo simples e sofrido, mas com uma esperança inabalável.
Dos anos que passei na África tenho muitas histórias que recordo com carinho e com saudade, porque foram essas histórias de encontros com a gente que marcaram o início de uma vida de ministério ao serviço dos pobres. Conto-vos algumas dessas histórias:

1. A primeira história que vos quero contar é a história da senhora Josephine.
Na tarde do domingo de Páscoa de 1996, cheguei a casa depois de três semanas a visitar algumas aldeias e quase duas centenas de quilómetros de bicicleta e uma esteira no chão a servir de cama. Estava completamente estafado! Tomei banho, comi alguma coisa e estendi-me em cima da cama. Pensei que finalmente iria ter um bom descanso! Estava eu quase a dormir quando alguém bateu à porta do meu quarto: “padre, a senhora Josephine está muito doente e quer vê-lo”. Fiquei aborrecido, mas resisti à grande tentação de adiar para o dia seguinte, embora fosse isso mesmo que me apetecia fazer!
Pegámos nas bicicletas e pusemo-nos a caminho. Ao chegar a casa da senhora Josephine encontrei-a, deitada no chão e envolta num monte de trapos. Quando me viu mexeu-se um pouco e deu-me as boas vindas, agradecendo também pela minha visita. Quis conversar muito… estive com ela mais de uma hora, partilhou a sua situação de dor e sofrimento, disse-me que ia morrer dentro de pouco tempo mas partilhou também aquela certeza de quem está para se encontrar com Deus. Retirei-me com lágrimas nos olhos!
Regressámos a casa; era já noite e tinha feito 29 quilómetros. No dia seguinte recebi a notícia de que a senhora Josephine tinha morrido durante a noite e que tinha morrido em paz.

2. Sempre vivi uma certa tensão no exercício do meu ministério de sacerdote, na medida em que tenho obrigações próprias do sacerdote às quais tenho que responder. E a vida missionária tem-me ensinado a perceber que há prioridades na vida, e que a vida tem a prioridade. E aqui entra a segunda história.
Fiquei absolutamente surpreendido quando um dia estava já preparado na sacristia para celebrar um funeral com missa de corpo presente. Chegou um catequista de uma das aldeias da paróquia a pedir para ir visitar um doente que estava muito mal e queria receber a santa unção e confessar-se.
Eu pensei que naquele dia já não seria possível, pois o funeral iria demorar cerca de duas horas e estávamos quase no final da tarde. O catequista da paróquia, que estava comigo disse-me: “padre, vá lá que eu faço o funeral! Não se preocupe com o funeral; é mais importante agora atender ao doente”. Eu fiquei sem saber o que fazer, mas como tinha sido o catequista chefe da paróquia a dizê-lo, saí, peguei na bicicleta e pus-me a caminho. E hoje penso para comigo, se isto acontecesse em Portugal, como teria sido?

E agora Lilanda! Lilanda é uma paróquia na periferia de Lusaka, cidade capital da Zâmbia. A paróquia tem cerca de 95 mil habitantes e faz parte de um bairro mais amplo, composto por três paróquias, que tem na totalidade cerca de 250 mil habitante. Aí fui pároco durante 8 anos.
Como pároco de uma paróquia enorme como esta e cheia de dasafios, tive a graça de ter como vigário paroquial um outro missionário comboniano de nacionalidade sul-africana. Ambos nos sentimos abençoados por termos a colaborar connosco um grande número de leigos formando várias equipas ao serviço da evangelização e da catequese, assim como na pastoral social, numa sociedade marcada por uma situação de pobreza generalizada.
A paróquia organizou-se de forma que os dois padres que aí trabalhávamos não tínhamos que gastar muito tempo nas burocracias relacionadas com a administração da paróquia. Deste modo, estávamos bastante disponíveis para o trabalho de contacto com a população, não só através das Comunidades Eclesiais de Base (que visitávamos regularmente), como nos vários ministérios relacionados com a pastoral social, justiça e paz, educação, saúde, etc.
As comunidades de base esperavam a nossa presença permanente nas suas reuniões, onde se tratava de tudo: a partilha da Palavra de Deus era o momento em que se traziam para o seio da comunidade as situações de pobreza, doença, situações de injustiça, etc. À luz da Palavra de Deus, partilhada na comunidade, procurava-se dar uma resposta às necessidades das pessoas no seu dia a dia. Tentávamos assim ser sinais da presença de Deus numa situação em que, muitas vezes, Deus parecia estar ausente.
Em Lilanda cresci na fé, aprendi a escutar a Palavra de Deus com a gente simples e pobre. Aprendi a descobrir Deus e a sua presença na precariedade da vida de tanta gente para quem Deus era a única esperança.
Tive momentos difíceis de desânimo e cheguei a escrever uma carta ao meu superior provincial para me enviar para outro lado, até que um dia numa reunião com os líderes do conselho pastoral, tive uma revelação que me deu uma nova força para continuar.
Era a vez de a senhora Faustina Mumba, a tesoureira da paróquia, fazer a oração final. E rezou assim: “hoje quero agradecer ao Senhor porque Ele tem sido muito meu amigo”. Fiquei instantaneamente com um nó na garganta. Na semana anterior a senhora Faustina tinha perdido um filho de 28 anos de idade que tinha morrido de SIDA; tinha deixado quatro filhos todos pequenos. Durante a mesma semana, a sua nora agora viúva, tinha tentado o suicídio três vezes… e ali estava ela a fazer uma experiência do amor de Deus no meio de tantas adversidades, e eu, por coisas insignificantes a querer fugir. Naquela noite, telefonei ao meu superior e pedi-lhe para esquecer a carta que lhe tinha escrito. Ainda hoje ele não sabe a rezão!
Foram experiências como estas que me ensinaram a crescer sempre na sensibilidade para as necessidades dos pobres e a perceber como Deus se revela através da gente simples.
A Eucaristia Dominical era o centro de toda a vida da paróquia: uma autêntica celebração da vida, cheia de alegria, de movimento e de cor. Pergunto-me muitas vezes como é que estes cristãos, a maioria dos quais vive abaixo do limiar da pobreza, eram capazes de celebrar a vida desta forma.
Os cristãos de Lilanda ensinaram-me a olhar para a vida de uma forma diferente; ensinaram-me a ver Deus no encontro com o outro; ensinaram-me a ser sacerdote; ensinaram-me a ser cristão.

sábado, fevereiro 01, 2020

Dasafio dos Pobres I

Quando dou comida aos pobres, chamam-me santo; quando pergunto porque é que eles são pobres, chamam-me comunista”. (Dom Hélder Câmara, bispo de Olinda e Recife, Pernambuco – Brasil).

Nota bibliográfica
Bairral é uma pequena aldeia situada a cerca de 7km a sul da cidade de Lamego. Aí nasci a 14 de Fevereiro de 1963 e fui batizado no dia 25 do mesmo mês (segunda-feira); sou o mais velho de onze irmãos (cinco rapazes e seis raparigas).
Nasci num ambiente familiar onde se viviam os valores cristãos da fé, participação na Eucaristia, oração diária do terço em família e solidariedade com os pobres. Sempre me impressionou muito a sensibilidade dos meus avós e dos meus pais para as necessidades dos pobres, num tempo em que, quase diariamente passava pela aldeia alguém que pedia um naco de pão, uma tigela de sopa ou um copo de vinho!
Na minha paróquia, Penude, vivia-se ainda um ambiente religioso onde a participação na missa dominical era obrigatória: quem não ia à missa era objeto de conversas e de críticas na rua. Este ambiente contribuiu muito para o meu crescimento como pessoa, e para o nascimento e desenvolvimento da minha vocação missionária.
Foi na escola primária que eu ouvi falar dos Missionários Combonianos pela primeira vez. Ao ouvir o missionário comboniano P. Lorenzo Turrini, (italiano) falar de Moçambique e das carências de todo o tipo vivido pelas populações em plena guerra colonial, senti pela primeira vez o apelo para a vida missionária como forma de fazer alguma coisa pelas crianças de Moçambique das quais nos falou com muito entusiasmo o P. Turrini.

Génese da minha vocação
Quando pela primeira vez fui ter com o meu pároco e dizer-lhe que iria entrar no seminário das missões, como era conhecido o seminários dos Missionários Combonianos em Viseu, ele imediatamente me sugeriu que eu entrasse no seminário de Lamego, pois ‘temos muita falta de sacerdotes’ dizia. Eu apreciava muito o meu pároco que era um homem bom, extremamente simpático com os paroquianos, muito sociável, sempre disponível. Mas eu vivia uma inquietação interior que me transportava para longe e por isso, naquele momento, não sei se por inspiração do Espírito Santo ou por pura malícia, respondi que não sabia se queria ser padre; o que eu queria era ser missionário.
Mas houve um sacerdote que, embora eu não conhecesse muito bem pessoalmente, foi para mim uma referência. O P. Brás, pároco durante mais de 60 anos da paróquia próxima da minha, era um homem simples, um pouco rude no trato, mas de uma disponibilidade e proximidade das pessoas de uma forma que só um verdadeiro homem de Deus pode fazer. Era muitas vezes chamado a visitar os doentes, com muita frequência a meio da noite, coisa que ele sempre fazia com prontidão, mesmo quando era a necessário sair nas noites frias de inverno, para ir à aldeia que ficava do outro lado do rio a cerca de três quilómetros de distância por carreiros cheios de pedras e lama, para administrar os ‘últimos sacramentos’. Vestia a sua batina por cima do pijama, diziam, e depois de colocar a tradicional capa aos ombros aí saía ele, sempre acompanhado de alguém (um homem, claro) não fossem os paroquianos pensar coisas feias ao ver o seu pároco sair a meio da noite e chegar a casa uma ou duas hora depois. Esta sua proximidade com as pessoas, a sua sensibilidade para as necessidades da gente e a prontidão para se fazer presente e tornar Deus presente faziam com que lhe perdoassem algumas atitudes ou palavras menos próprias nas suas homilias.

sexta-feira, abril 20, 2018

Regresso ao Blogue

Ora cá estou eu de regresso ao Blogue! Depois de um período longo em que quase me esquecia do blogue (!!!), regresso agora, talvez para dar um rosto e um conteúdo novo ao blogue. Mas isso vai-se realizando pouco a pouco.
Estamos na primavera e ao mesmo tempo no tempo Pascal. Vida nova em todos os sentidos. Por isso, o artigo anterior sobre o encontro com Jesus Ressuscitado, marca um novo início na vida de Zikomo! Quem sabe até um novo título... Vamos ver o  que o Espírito me sugere!
Continuarei certamente a partilhar a missão. Boa leitura.

Encontro com o Ressuscitado


Aqui publico uma reflexão sobre um encontro do Senhor Ressuscitado com os seus discípulos. Foi já publicado no boletim informativo dos Missionários Combonianos, Família Comboniana. Boa leitura.

Um certo dia, depois da ressurreição, Jesus decidiu ir dar um passeio cedo pela manhã. Desta vez foi para a praia do lago da Galileia (João 21, 1-14). Como ainda era cedo e fazia frio, Jesus acendeu uma fogueira e sentou-se. Olhando em redor, viu lá no lago uma barca com pescadores. Eram alguns dos seus amigos que, liderados por Pedro, tinham ido pescar. E, como em tantas outras noites, não pescaram nada. Estavam desanimados.
Pedro decide fazer exatamente o que Jesus lhes tinha mandado fazer. E os seus amigos – que eram também amigos de Jesus – decidem ir com ele. Pegam tudo para ir pescar, mas esqueceram-se de Jesus. Deixaram Jesus na margem do lago. Não é de admirar, pois, que não pesquem nada. Sem Jesus, como é que querem pescar?
Meditando bem nesta história de ressurreição podemos concluir que eles não tinham pescado nada porque se tinham esquecido de levar Jesus com eles. E, sem Jesus, não há pesca! Claro que a pesca de que estamos a falar é a pesca de homens e mulheres para a qual Jesus tinha chamado os seus amigos, isto é, evangelizar.
Olhemos um pouco para estes amigos de Jesus! Quem são eles? Cada um deles tem alguma ferida que precisa ser curada pelo ressuscitado. Ora vejamos: Pedro negou Jesus e disse tantos disparates (Jo 18, 15-27; Mc 8, 32-33); Tomé faltou à missa no domingo anterior (!!!) e duvidou da sua ressurreição (Jo20, 24-25); Natanael disse: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1, 46); os Filhos de Zebedeu (Tiago e João) que queriam churrascar uma aldeia na Samaria por não os ter acolhido (Mc 1, 19; Lc 9, 54s); os outros dois… bem, os outros dois somos cada um e cada uma de nós! Todos temos alguma ferida que precisamos de curar e necessitamos de nos reconciliar com Jesus.
Jesus preocupa-se, faz-se sentir. O Jesus ressuscitado revela-se na vida concreta do dia a dia dos seus amigos. Mesmo se aparece como um desconhecido. Mesmo um que não é da barca de Pedro! Está na margem! Pedro e os outros estavam de coração aberto. Escutam-no. E isto não é pouco! Pedro não era muito de escutar! Era mais de falar, mesmo quando não devia falar!
E Jesus diz-lhes: Mandem as redes para a direita, isto é, mandem as redes para o lado certo da barca; por outras palavras, ‘não façais como tendes sempre feito!’ Não vos contenteis com o que tendes sempre feito. Tentai algo de novo. Sou eu que vos digo. Deixai-vos guiar pelo Espírito. Pedro, que sabe sempre tudo, agora aceita a sugestão deste desconhecido. O discípulo que Jesus amava, ao ver a quantidade de peixe diz: “É o Senhor!”
Depois da pesca abundante, acontece algum muito interessante. Inicialmente todos juntos não conseguem arrastar as redes cheias de peixe; sem Jesus não se consegue nada (v. 6); mas quando Pedro está perto de Jesus, ou outros, sem Pedro, conseguem arrastar as redes (v. 8). E, finalmente, com Jesus Pedro sozinho pode arrastar as redes (v. 11).
Quando chegam à margem, Jesus, novamente sentado à fogueira, tem tudo preparado: “vinde tomar qualquer coisa”. Todos devem contribuir com qualquer coisa: “trazei alguns peixes”. Mas é Ele que serve, que preside; é Ele que guia a missão! Imaginem como se sentem bem na companhia de Jesus, lembrando-se sempre que é ele que envia.
Jesus, da margem, com muita delicadeza, chama-os; chama-os filhinhos. “Tendes qualquer coisa para comer?” Não o diz por si, porque Ele não tem mais necessidade de comer. Mas tem uma revelação a fazer-lhes. Ele está vivo, ressuscitou e está presente na vida dos seus amigos.
Que esta Páscoa seja para cada um de nós uma verdadeira experiência de Jesus que quer curar as nossas feridas e nos convida, também a nós, a acolher a vida nova que Ele nos veio trazer. Tal como os discípulos, também nós temos algo que precisa de ser curado dentro de nós; precisamos de nos reconciliar com Jesus.
O encontro com Jesus Ressuscitado cura-nos e faz de nós pescadores de homens e mulheres para o Reino de Deus.

domingo, junho 02, 2013

Menina de 12 anos amarrada ao telhado de uma igreja

É chocante constatar os casos sem conta em que crianças são abusadas, agredidas e exploradas pelas pessoas que elas amam e nas quais confiam. Mas quando as agressões e abusos são de carácter religioso, ou seja, em nome de Deus, o choque toca o absurdo.
Vizinha falando com a nossa equipa das comunicações
Foi o que aconteceu na semana passada aqui em Lilanda a cerca de trazentos metros da nossa paróquia. Uma menina de 12 anos de idade foi amarrada com uma corrente ao telhado de uma igreja pertencente a uma das muitas seitas presentes aqui no bairro de Lilanda. A mãe, terá entregue a menina ao cuidado do pastor que a amarrou ao telhado da igreja sem lhe dar comida nem água. Segundo o testemunho de alguns vizinhos, a mãe da menina teria feito isso porque “ela estava a ficar louca e possuida pelo demónio”. A intenção era que o dito pastor rezasse por ela e a curasse depois de a menina jeduar durante muitos dias. Os vizinhos suspeitaram de que alguma coisa não estava bem, pois ouviam alguém chorar dentro da igreja e um sugeito entrar todas as manhas e sair alguns minutos depois. Mas só ao fim de cinco dias se aperceberam do que se passava e chamaram imediatamente a polícia.
Segundo o testemunho de uma vizinha, a menina ao sair da igreja tirada pela polícia, pediu água, pois estava há cinco dias sem beber nem comer. A mãe, ao ver a fúria dos vizinhos negou tudo, mas veio a admitir mais tarde, na esquadra da polícia, que entregou a menina ao pastor para que ele rezasse por ela.
O caso chocou o bairro. Algo inacreditável e inaceitável que devemos denunciar e condenar com todas as forças.
Escombros da igreja destruida pela fúria dos vizinhos
Furiosos, os vizinhos destruiram completamente a igreja, reduzindo-a a escombros como se de uma retro-escavadora se tratasse. Ao serem questionados sobre a possibilidade de a igreja ser reconstruida, os vizinhos apressaram-se a dizer que não querem mais aquela igreja à porta das suas casas. De facto, dizia uma senhora, “costumavam rezar, cantar e fazer barulho durante toda a noite, te tal modo que não podíamos dormir descansados!”
Casos de abuso e agressão de crianças são comuns aqui no bairro. Um desafio para as comunidades cristãs que são diariamente confrontadas com estas situações dentro da própria comunidade.


sábado, março 30, 2013

Via Sacra em Lilanda

Celebramos mais uma vez o Mistério Pascal! Jesus, o enviado do Pai, permanece fiel aos seus princípios e não recua nem foge! Por isso é morto como um crimoso, mas a morte não tem poder sobre ele. Nestes dias há grandes manifestações de fé! E a Via Sacra é uma manifestação popular que está enraizada na vida e no coração dos cristãos, sobretudo dos que vivem em bairros pobres e que, como Jesus, são hoje ‘açoitados’, explorados, oprimidos e abandonados pelos seus próprios líderes. Em Lilanda, não se foge à regra: os cristãos vivem com muita intensidade tudo o que se passa na Sexta Feira Santa. Aqui vai um pequeno filme que mostra alguns aspectos da Via Sacra (celebrada hoje em Lilanda) e a grande participação dos cristãos. Mas a Via Sacra não teria sentido sem a ressurreição! É o Senhor Ressuscitado que dá sentido às nossas vidas e nos liberta do sofrimento e de tudo o que nos faz menos humanos. Boa Páscoa!


quinta-feira, março 21, 2013

Para uma Igreja serva e pobre

Aqui publico um texto interessantíssimo, provavelmente desconhecido da maioria das pessoas. Inspirou-me o padre comboniano Kizito que o publicou em Inglês no seu blogue. Esta é provavelmente a versão original!

No dia 16 de novembro de 1965, há 47 anos, poucos dias antes do encerramento do Vaticano II, cerca de 40 padres conciliares celebraram uma Eucaristia nas Catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus.
Depois dessa celebração, assinaram o "Pacto das Catacumbas".
O documento é um desafio aos "irmãos no Episcopado" a levar adiante uma "vida de pobreza", uma Igreja "serva e pobre", como sugerira o Papa João XXIII.
Os signatários – entre eles muitos brasileiros e latino-americanos, embora muitos outros aderiram ao pacto mais tarde – se comprometiam a viver em pobreza, a renunciar a todos os símbolos ou privilégios do poder e a pôr os pobres no centro do seu ministério pastoral. O texto teve uma forte influência sobre a Teologia da Libertação, que surgiria nos anos seguintes.
Um dos signatários e propositores do pacto foi Dom Helder Câmara.

Eis o texto.
Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre
Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.
9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.
11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:

·  a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
·  a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
·  esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;
·  suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
·  procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
·  mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.
13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

Ajude-nos Deus a sermos fiéis.

sexta-feira, março 15, 2013

Ventos de Mudança

Photo: Internet
Francisco no momento em os fiéis rezam por ele
O mundo parou em frente da televisão para ver o novo papa. Com a saída do fumo branco aumentou a espectativa. Surpresa!!! O novo papa vem da Améria Latina ou, nas suas próprias palavras, “do fim do mundo”.
A sua primeira aparição à multidão foi certamente carregada de simbolismo! Gestos simples e de profunda humildade auguram uma forma nova se ser papa! Uma forma nova de conduzir a Igreja! A Igreja necessita de estar mais próxima dos homens e das mulheres que buscam Deus e que esperam dos seus líderes compaixão, amor, conforto, protecção.
Chama-se Francisco! O pobre amigo dos pobres! O amigo Deus! O amigo da paz! O amigo da natureza! O santo que, na sua simplicidade soube colocar o essencial em primeiro lugar: o Evangelho. Quero acreditar que a escolha do nome seja de facto em homenagem a Francisco de Assis. Se assim é, então ele deixa antever uma forma nova – ou talvez antiga! – de o papa se apresentar ao mundo. Fá-lo-há certamente com humildade e simplicidade provido com a força que lhe vem do Evangelho.
Foi particularmente comovente o seu grande gesto de humildade ao pedir a bênção aos cristãos presentes na praça de S. Pedro: “agora gostaria de vos abençoar, mas antes peço-vos um favor: antes de o bispo abençoar o povo, peço-vos que peçais ao Senhor que me abençoe”. Baixando a cabeça, o papa Francisco disse-nos a todos que precisa de nós, da nossa oração, do nosso apoio e carinho! Só assim terá a força necessária para nos abençoar a nós. Um gesto nunca visto antes!
Estamos certamente a respirar ventos de mudança na nossa Igreja! Este é um momento de grande esperança para a Igreja e para o mundo.
Francisco tem certamente grandes desafios pela frente! Mas tem certamente a força do Evangelho e um coração grande! O Espírito, que certamente deu uma mãozita na sua escolha, está com ele! E nós, aqui na linha da frente, vamos rezar por ele e, com ele, tentaremos ser testemunhas daquele que há dois mil anos aproximou Deus dos pobres e lhes anunciou que é possível viver a fraternidade, aquela fraternidade que o papa Francisco quer construir na Igreja e no mundo.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Eleições no Senegal: Abdoulaye Wade de saída?

Eleitores na primeira volta das eleições presidenciais
(Marieme/All Africa)
Ontem, Domingo, 26 de fevereiro realizaram-se eleições no Senegal. Segundo o site noticioso All Africa a contagem dos votos antevê a vitória do candidato da oposição Macky Sall e, por conseguinte, a necessidade de uma segunda volta para as presidenciais. Um correspondente da All Africa relata que “depois de uma campanha eleitoral turbulenta – em que Wade concorreu, polémicamente, a um terceiro mandato - os eleitores responderam com maturidade no Domingo, afluindo às urnas com confiança e em grandes números”. Ao serem anunciados os primeiros resultados, Sall mostrou-se convicto de que tinha ganho as eleições nas maiores regiões do país, incluindo Dakar, Rufisque, Tambacounda, Matam, Louga, Foundiougne, Matam and Boukounling, assim como na diáspora. O próprio Sall afirmou que “uma segunda volta será inevitavel”. Fez também um apelo à aceitação dos resultados, uma vez que eles são a expressão da vontade popular. Wade was vaiado mesmo no seu distrito de origem, quando se dirigia para a estação de voto no Domingo. Wade alegadamente disse ao jornal francês Journal du Dimanche antes das eleições que iria ganhar por uma maioria “esmagadora” na primeira volta. A vontade do povo parece dizer algo diferente.

quarta-feira, julho 20, 2011

Uma Canção

Se uma canção bastasse
Para mudar o mundo!
Passaria a vida a cantar!

Os homens seriam mais responsáveis,
As mulheres mais livres
E as crianças mais amáveis
E felizes!
A vida faria mais sentido
Porque a minha canção
Ressoar-lhes-ia continuamente
Ao ouvido.

Os velhinhos seriam mais protegidos,
Os doentes mais bem acolhidos
E os drogados mais aceitados
E queridos.
A vida faria mais sentido
Porque a minha canção
Ressoar-lhes-ia continuamente
Ao ouvido.

Os políticos seriam mais honestos,
Os governantes mais preocupados;
Não haveria mais guerra
Nem refugiados.
A vida faria mais sentido
Porque a minha canção
Ressoar-lhes-ia continuamente
Ao ouvido.

Se uma canção bastasse
Para mudar o mundo!
Passaria a vida a cantar!

quinta-feira, outubro 21, 2010

Entrevista à Agência Ecclesia

A Agência Ecclesia publicou hoje, 21 de Outubro, um artigo baseado numa entrevista dada ontem à noite. Pode ajudar a criar uma maior sensibilidade para a realidade missionária e a viver melhor o Dia Missionário Mundial que se aproxima. O próximo Domingo, 24 de Outubro, é uma oportunidade única para cada cristão tomar uma maior consciência da sua vocação missionária. Aconselho a leitura do referido artigo. Para ler o artigo click aqui!

segunda-feira, outubro 18, 2010

Primeiro Congresso Missionário na Zâmbia

Realizou-se em Lusaka, Zâmbia, o primeiro Congresso Missionário subordinado ao tema “Somos todos missionários”. De 13 a 15 de Outubro, o evento reuniu cerca de uma centena de pessoas entre clero diocesano, religiosos, religiosas e leigos.
O P. Moises García, comboniano mexicano, definiu o evento como “um desafio para nós, missionários” pois a Igreja local é cada vez mais chamada a tomar a iniciativa da evangelização; é também “um ponto de partida para a igreja local como igreja missionária”.
Nas palavras de Antony Mkhari, estudante comboniano Sul-africano que participou no evento, esta foi uma oportunidade para a igreja local “alargar os seus horizontes e tornar-se cada vez mais consciente da sua vocação missionária”. Na sua opinião, a igreja na Zâmbia enfrenta vários desafios relacionados com a sua ‘vocação’ evangelizadora. Se, por um lado, a primeira evangelização é uma prioridade absoluta nas zonas rurais, por outro, há um desafio enorme nas cidades, onde assistimos a um êxodo de católicos que facilmente se deixam seduzir por comunidades cristãs evangélicas e pentecostais. É tempo de nos perguntarmos: por que é que isto acontece?
O Congresso foi “um verdadeiro acontecimento do Espírito para a Igreja da Zâmbia”, dizia o P. Carlos Nunes, comboniano português que teve um papel preponderante na organização e realização deste evento. O P. Carlos Nunes é o Director das Obras Missionárias Pontifícias na Arquidiocese de Lusaka desde há 3 anos. Agora ao regressar a Portugal para um novo serviço missionário é um homem visivelmente satisfeito por ter contribuído para uma maior sensibilização da Igreja local em relação à sua vocação missionária, e por ter contribuído activamente para que este evento fosse possível.
Nesta, que foi a primeira iniciativa do género na Zâmbia, foi realçado o valor da oração como parte da missão. A missão deve estar centrada no encontro com a Trindade, isto é, “o Pai que envia o Filho e o Espírito para se manifestarem em nós”, como se pode ler numa das moções finais do Congresso.
É de fundamental importância que, no serviço de evangelização, a Igreja faça uso dos meios modernos de comunicação, uma vez que, sobretudo nas zonas urbanas, o uso destes meios é hoje generalizado.
Os trabalhos do Congresso concluíram com uma peregrinação missionária ao Santuário Mariano da Arquidiocese de Lusaka, com a participação de cerca de 3500 pessoas, entre elas um grande número de crianças da Infância Missionária. Uma iniciativa que deu um brilho especial ao mês de Outubro, mês missionário por excelência.
O evento contou com a presença e participação do P. Timothy Lehane, Secretário-geral das Obras Missionárias Pontifícias em Roma. A sua presença deu maior relevo e visibilidade ao acontecimento. Na sua intervenção, realçou o papel dos institutos religiosos na missão da Igreja.
A realização deste Congresso Missionário foi um passo muito importante na tomada de consciência da Igreja local para a sua vocação missionária. Esperava-se, no entanto, um envolvimento maior das autoridades religiosas locais que, desta vez, se mantiveram um pouco à margem do acontecimento.
Resta-nos esperar que haja continuidade e que os bispos da Zâmbia agarrem a oportunidade de tornar as suas Igrejas mais missionárias.



segunda-feira, outubro 11, 2010

Daniel Comboni

Hoje, 10 de Outubro, celebramos S. Daniel Comboni. Recordamos e celebramos o nosso pai e fundador que continua a sustentar-nos com a sua força e carisma. Nós somos as mil vidas que ele desejou ter para dedicar à salvação dos africanos. Sim, a sua obra não morre!
Também aqui em Lilanda, celebramos esta festa. Comboni é também venerado pelos cristãos da Lilanda, especialmente pelos cristãos da Comunidade de Base que tem o seu nome. Hoje, sentem-se muito orgulhosos do seu santo protector.
A celebração da Eucaristia dominical teve especial solenidade e com o entusiasmo característico da comunidade cristã de paróquia de Lilanda. O canto e a dança, acompanhados com o som dos tambores e das guitarras encheram a celebração de cor e de alegria.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Alegria de brincar juntos

É domingo ao fim da tarde. Num canto sossegado da capela da comunidade procuro um pouco de silêncio. O fim-de-semana foi muito ocupado com várias actividades e sobretudo com muita gente. No silêncio do fim da tarde procuro simplesmente parar e deixar-me invadir pela presença de Deus. Procuro colocar nas Suas mãos as pessoas e actividades que ocuparam o meu fim-de-semana e as que, lá longe, de uma forma ou de outra, fazem parte da minha vida e me acompanham com o seu apoio e oração.
Enquanto procuro ficar em silêncio deixo-me distrair pelo cantar de um grilo que, lá fora, me transporta para os dias da minha infância e juventude em que o cantar dos grilos e o chilrear dos pássaros eram a polifonia característica da primavera e do verão.
Passado algum tempo há outras vozes que, pouco a pouco, vão atraindo a minha atenção. São as crianças das famílias vizinhas que brincam alegremente mesmo aqui ao lado. De repente lembrei-me das nossas brincadeiras de criança e jogos tradicionais, sobretudo nos dias longos de verão, que estimulavam a nossa imaginação e criatividade e animavam o entardecer de cada dia. Eram sobretudo oportunidades para criar laços de amizade e de camaradagem entre todos.
É com uma certa saudade que recordo esses tempos! Parece-me que as crianças de hoje têm perdido muito da alegria de brincar umas com as outras. Parece-me, digo! Não havia televisão nem telemóveis! Não havia computadores nem consolas para jogar! Por isso, a imaginação era estimulada de uma maneira extraordinária e dava vida à aldeia. Hoje, na minha aldeia, não se brinca na rua: as crianças brincam com o telemóvel, jogam ao computador, vêem televisão!
Aqui em Lilanda, e noutras paragens africanas por onde tenho passado, as crianças continuam a sentir muitas das ‘carências’ que eram sentidas nos meus tempos de criança. Mas hoje aqui, como então, há algo de maravilhoso que me toca profundamente! Há crianças que continuam a brincar em grupo; inventam jogos novos; constroem os seus próprios brinquedos!
Fala-se que vivemos na era das comunicações! E é verdade: hoje comunica-se muito e a tecnologia torna possível comunicar em tempo real com pessoas a milhares de quilómetros de distância. Mas não comunicamos com a mesma facilidade com os que estão ao nosso lado.
Ao reflectir sobre estas pequenas coisas, constato que a abundância nem sempre torna as pessoas mais humanas. Certamente que ninguém gostaria de voltar aos tempos difíceis de outrora em que muita gente não tinha o essencial para viver uma vida digna! Mas talvez houvesse mais humanidade! As pessoas falavam mais umas com as outras; conviviam mais; eram mais solidárias.
Aqui as pessoas são pobres e nós devemos continuar a lutar para que tenham uma vida mais digna. Mas devemos também continuar a lutar para conservar aqueles valores que nos tornam mais próximos uns dos outros.
Anoiteceu! Mergulhei novamente no silêncio… Chegou a hora da oração da comunidade.

terça-feira, agosto 17, 2010

Cinquenta anos juntos

No sábado, dia 14 de Agosto, celebraram as suas Bodas de Ouro os meus pais Maria de Jesus e José. A celebração teve lugar na Igreja Paroquial de Penude com a presença de todos os seus filhos, genros, noras e netos. Estiveram presente também o P. Adriano, nosso pároco e o P. Avelino Maravilha, missionário comboniano que, no momento, se encontra de férias. O P. Avelino encontra-se actualmente a trabalhar no Chade. Contámos também com a companhia preciosa dos nossos amigos Arlinda, José e Ester de Coimbra.
Quisemos que esta celebração fosse sinal e expressão do reconhecimento e do amor dos filhos por todas as coisas boas que temos recebido dos nossos pais, sobretudo pelo dom da vida que deles recebemos, e pelo apoio incondicional que sempre nos deram em todos os momentos da nossa vida.
Foi o desejo de exprimir tudo isto que motivou a minha vinda da Zâmbia para passar com eles estes curtos momentos. Acredito que a minha vocação é também a vocação dos meus pais que, com muita generosidade, sempre me deixaram partir, embora, muitas vezes, com as lágrimas nos olhos! Por isso quero também exprimir a gratidão por tudo o que eles significam para mim.
Os nossos pais têm sido sempre para nós, seus filhos, sinal de fidelidade e perseverança nas dificuldades. Este pequeno texto é mais uma homenagem que lhes quero prestar. Rezo para que o Senhor continue a abençoá-los e lhes dê muitos anos de vida cheios de coisas boas.

Social Icons

.