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sábado, julho 17, 2010

O Som do Silêncio

Nestes dias estamos a fazer o nosso retiro anual. No início do retiro pergunto-me: o que é que me leva a deixar as minhas actividades normais do dia-a-dia, a minha gente, a casa onde me sinto confortável e partir à procura do silêncio? O retiro é um tempo ideal para descansar a mente e o corpo, renovar o entusiasmo pelo ministério, etc. Tudo isto são razões válidas para o missionário se retirar. Mas o missionário deve sentir este chamamento de Deus a procurar períodos de silêncio, reflexão, meditação e escuta da sua vontade.
No início do retiro, o pregador laçou o mote: vim fazer o retiro para celebrar a presença de Deus na minha vida. Vim para me encontrar com Jesus, comigo mesmo… Vim também para interceder pela minha gente. O retiro deve fazer-me mais disponível para Deus e para a minha gente. O meu tempo no retiro pertence à minha gente que me deu a oportunidade de entrar em silêncio por um período prolongado de tempo.
Normalmente falamos demais e deixamo-nos levar pelo activismo. Vivemos demasiado ocupados a fazer as coisas do Senhor que nos esquecemos, com frequência, do Senhor das coisas. Encontrar tempo para o Senhor das coisas é um desafio contínuo para o missionário, pois há sempre tanto para fazer! Ele é uma escola em construção; ele é uma comunidade que precisa de ser visitada; ele é um grupo de catecúmenos que precisa de instrução; ele é um doente que espera uma visita; ele é um pobre que vem a pedir ajuda; ele é o escritório que precisa de se actualizar e manter em ordem!!!
Em Lilanda, por exemplo, vivo constantemente rodeado de gente! Se quero encontrar um pouco de silêncio, devo fazê-lo nas horas tranquilas da madrugada onde posso encontrar-me com Aquele que me conduz nas tarefas do dia. Aí escuto a voz do silêncio que me dá força para enfrentar com serenidade e dedicação todas as actividades e situações do dia.
O tempo de retiro é uma oportunidade única para renovar o compromisso com a minha vida de oração e dedicação ao serviço da gente que o Senhor me confiou. É o encontro com Deus, o único que pode fazer com que a minha pregação e o meu testemunho não sejam vazios.
Na capela observo os meus confrades! É extraordinário ver um grupo de homens que vivem normalmente a correr freneticamente de um lado para o outro a ajudar as pessoas, rezando agora em silêncio e ‘inactivos’, escutando o Senhor!
Como missionário sou, muitas vezes, tentado a concluir que fui chamado para “fazer”, agir, falar… Ficar em silêncio é ter a ‘coragem de ser’ nas palavras de Paul Tillich. É um acto de fé, pois sou confrontado com muitas perguntas sobre a razão do meu estar aqui, da minha vocação, dos meus compromissos! No silêncio sou confrontado com a minha própria realidade, com a forma como exercito o meu ministério e com a autenticidade da minha vida diária. É ao som do silêncio que eu oiço a voz interior que me convida sempre a uma maior autenticidade e generosidade na minha entrega. É aqui que me encontro verdadeiramente comigo mesmo. Por isso, às vezes sinto-me perturbado pelo silêncio. Estou demasiado habituado a viver e agir no meio do barulho.
No silêncio entro em contacto com a realidade de mim mesmo, do meu interior, daquilo que sou no mais profundo do meu ser e que não se manifesta nas actividades normais do meu dia-a-dia; no silêncio estou em contacto com a realidade crua das minhas limitações. Mas estou também em contacto com o que de melhor existe em mim: a minha fé, a coragem que me vem de Deus e, sobretudo, a certeza de que Deus está sempre lá em tudo o que faço e digo para anunciar a Boa Nova. Ele está lá em todos os momento da minha vida mesmo quando, no barulho dos momentos difíceis, não consigo senti-lo.

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