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sábado, julho 17, 2010

O Som do Silêncio

Nestes dias estamos a fazer o nosso retiro anual. No início do retiro pergunto-me: o que é que me leva a deixar as minhas actividades normais do dia-a-dia, a minha gente, a casa onde me sinto confortável e partir à procura do silêncio? O retiro é um tempo ideal para descansar a mente e o corpo, renovar o entusiasmo pelo ministério, etc. Tudo isto são razões válidas para o missionário se retirar. Mas o missionário deve sentir este chamamento de Deus a procurar períodos de silêncio, reflexão, meditação e escuta da sua vontade.
No início do retiro, o pregador laçou o mote: vim fazer o retiro para celebrar a presença de Deus na minha vida. Vim para me encontrar com Jesus, comigo mesmo… Vim também para interceder pela minha gente. O retiro deve fazer-me mais disponível para Deus e para a minha gente. O meu tempo no retiro pertence à minha gente que me deu a oportunidade de entrar em silêncio por um período prolongado de tempo.
Normalmente falamos demais e deixamo-nos levar pelo activismo. Vivemos demasiado ocupados a fazer as coisas do Senhor que nos esquecemos, com frequência, do Senhor das coisas. Encontrar tempo para o Senhor das coisas é um desafio contínuo para o missionário, pois há sempre tanto para fazer! Ele é uma escola em construção; ele é uma comunidade que precisa de ser visitada; ele é um grupo de catecúmenos que precisa de instrução; ele é um doente que espera uma visita; ele é um pobre que vem a pedir ajuda; ele é o escritório que precisa de se actualizar e manter em ordem!!!
Em Lilanda, por exemplo, vivo constantemente rodeado de gente! Se quero encontrar um pouco de silêncio, devo fazê-lo nas horas tranquilas da madrugada onde posso encontrar-me com Aquele que me conduz nas tarefas do dia. Aí escuto a voz do silêncio que me dá força para enfrentar com serenidade e dedicação todas as actividades e situações do dia.
O tempo de retiro é uma oportunidade única para renovar o compromisso com a minha vida de oração e dedicação ao serviço da gente que o Senhor me confiou. É o encontro com Deus, o único que pode fazer com que a minha pregação e o meu testemunho não sejam vazios.
Na capela observo os meus confrades! É extraordinário ver um grupo de homens que vivem normalmente a correr freneticamente de um lado para o outro a ajudar as pessoas, rezando agora em silêncio e ‘inactivos’, escutando o Senhor!
Como missionário sou, muitas vezes, tentado a concluir que fui chamado para “fazer”, agir, falar… Ficar em silêncio é ter a ‘coragem de ser’ nas palavras de Paul Tillich. É um acto de fé, pois sou confrontado com muitas perguntas sobre a razão do meu estar aqui, da minha vocação, dos meus compromissos! No silêncio sou confrontado com a minha própria realidade, com a forma como exercito o meu ministério e com a autenticidade da minha vida diária. É ao som do silêncio que eu oiço a voz interior que me convida sempre a uma maior autenticidade e generosidade na minha entrega. É aqui que me encontro verdadeiramente comigo mesmo. Por isso, às vezes sinto-me perturbado pelo silêncio. Estou demasiado habituado a viver e agir no meio do barulho.
No silêncio entro em contacto com a realidade de mim mesmo, do meu interior, daquilo que sou no mais profundo do meu ser e que não se manifesta nas actividades normais do meu dia-a-dia; no silêncio estou em contacto com a realidade crua das minhas limitações. Mas estou também em contacto com o que de melhor existe em mim: a minha fé, a coragem que me vem de Deus e, sobretudo, a certeza de que Deus está sempre lá em tudo o que faço e digo para anunciar a Boa Nova. Ele está lá em todos os momento da minha vida mesmo quando, no barulho dos momentos difíceis, não consigo senti-lo.

sexta-feira, julho 16, 2010

Quinze anos de Sacerdócio

Hoje, 16 de Julho, é o dia do aniversário da minha ordenação sacerdotal. 15 anos ao serviço da missão como sacerdote missionário comboniano. Ao escrever estas palavras quero exprimir a minha gratidão a Deus e a quantos fizeram e fazem parte da minha história. Por isso, quero recordar o apoio incondicional dos meus pais e irmãos e restantes familiares e amigos que, ao longo destes anos todos sempre estiveram ao meu lado e me encorajaram a ser fiel ao meu sacerdócio.
Este é também um momento para fazer memória de algumas outras pessoas e eventos que marcaram a minha vida como sacerdote. Tiveram uma importância fundamental os primeiros três anos logo a seguir à minha ordenação, passados no Sudão do Sul. Tempos difíceis da guerra, foram marcados sobretudo pelo exemplo e entusiasmo missionário de dois homens que me ensinaram a ser missionário e sacerdote. Falo do P. Elvio Chellana, que já se encontra na casa do Pai, e do Ir. Valentino Fabris que foram para mim exemplos de entusiasmo, serviço, fidelidade, entrega e amor à gente que todos procurámos servir. O Ir. Valentino tem agora 88 anos de idade. Um exemplo de fidelidade ao Senhor a quem serviu, quase sempre no Sudão, desde 1949.
As viagens intermináveis de bicicleta pela floresta densa e verde, são algo que eu recordarei sempre como uma experiencia extraordinária da minha vida. Às vezes difíceis por causa da malária que nos visitava frequentemente como amiga fiel, estas viagens faziam-me sentir perto de Deus e da natureza; faziam-me também sentir muito perto da gente, pois quando visitávamos as aldeias ficávamos sempre várias semanas fora, vivendo no meio da gente e adoptando o seu estilo de vida. Foram anos marcados pelo “encontro” com Deus, com aquela gente simples e pobre (os Azande) e comigo próprio. Estes primeiros anos de sacerdócio lançaram os alicerces da minha vida missionária.
Os anos que se seguiram (1998-2005) passei-os em Portugal e foram marcados essencialmente pelo desejo de voltar à missão. E, embora o meu desejo era de poder voltar ao Sudão, os superiores pediram-me para partir para a Zâmbia, onde me encontro presentemente.
Na Zâmbia, tive a oportunidade de trabalhar em Chikowa, uma missão no interior do país, em muitos aspectos semelhante a Nzara, no Sul do Sudão. E, quando estava já a sentir-me ‘em minha própria casa’ foi-me pedido novamente para partir, desta vez para Lilanda, uma paróquia nos arredores de Lusaka. Esta é uma realidade completamente diferente de todas as outras que eu tinha vivido anteriormente.
Lilanda é um lugar muito especial. A vida da comunidade cristã é marcada pela celebração e pela festa que contrastam com a pobreza generalizada característica dos bairros pobres da cidade. Aqui tenho aprendido a celebrar Deus, o Deus do encontro e da vida! Posso dizer que os cristãos de Lilanda me têm ensinado a ser sacerdote sobretudo pela grande capacidade de colocar tudo nas mãos de Deus e de celebrar a fé.
Ser padre para mim tem sido um caminho de contínua descoberta; descoberta de Deus na oração e no ministério que me foi confiado; descoberta dos valores e da fé daqueles que se têm cruzado comigo ao longo da minha vida; descoberta de mim mesmo e dos dons que o Senhor me tem concedido para o exercício da minha vocação missionária. Descoberta do facto de que nunca estive sozinho nesta bonita aventura de servir a gente na simplicidade e na pobreza da minha pessoa. O Senhor esteve sempre lá! Estiveram lá também tanta gente que, com a sua oração e apoio me têm sustentado no caminho.
Tenho certamente encontrado dificuldades! Mas as dificuldades são parte de qualquer vida digna de ser vivida. Hoje não peço a Deus para as remover do meu caminho, mas a força para continua a servi-Lo com generosidade. Por isso termino esta minha partilha recordando as palavras de Brenda Short:
“Não peças para que a carga da tua vida seja leve,
Mas pela coragem de perseverar;
Não peças pela tua realização pessoal em toda a tua vida,
Mas pela paciência na aceitação da frustração;
Não peças por perfeição em tudo o que fazes,
Mas pela sabedoria para não repetir os mesmos erros;
E, finalmente, não peças por mais nada sem antes dizer
‘Obrigado’ pelo que já recebeste”.
Zikomo kwambiri.

sábado, junho 26, 2010

Chimwemwe volta à Escola

Chimwemwe entrou no meu escritório com as lágrimas nos olhos. “Anandipisha ku sukulu”, disse entre soluços. Ao olhá-la nos olhos veio-me à mente o sofrimento de tantas outras crianças órfãs de Lilanda que são constantemente expulsas da escola por não pagarem as propinas. O seu futuro, esse está definitivamente comprometido.
Em Lilanda, como em tantos outros bairros pobres da periferia de Lusaka, há milhares de crianças órfãs que vivem com os avós ou outros familiares. É frequente encontrar uma velhinha com seis ou sete netos órfãos! Como se pode imaginar, encontrar comida e medicamentos quando adoecem, é só por si um pesadelo para estas famílias. O acesso ao ensino torna-se quase impossível para muitas destas crianças. O resultado é que muitas destas crianças não têm a possibilidade de ir à escola e, por isso passam o seu tempo nas ruas sem nada para fazer.
Estou a lembrar-me da senhora Serafina que vive com o seu marido, ambos de idade avançada e que têm ao seu cuidado seis netos, todos eles órfãos. Vivem das ajudas dos vizinhos e dos cristãos da Comunidade Eclesial de Base à qual pertencem. Quando a visitei, há já alguns dias, encontrei-a à porta da sua casita, à sombra de uma mangueira fugindo ao calor escaldante que se fazia sentir. As crianças, brincando, pareciam não ter notado a minha chegada. Foi então que a avó as chamou: “Abambo abwera; apatseni moni!” (Chegou o senhor padre, venham cumprimentá-lo). Foi então que desabafou, tal como Chimwemwe, com as lágrimas nos olhos: “anthu amatithandiza kwambiri pakutipatsa unga, koma sukulu, abambo… sukulu imativuta!” (As pessoas vão-nos ajudando com farinha, mas a escola, padre… a escola é que é o problema!). Como esta família há muitas outras no bairro.
Na nossa Escola Comunitária de S. José, ajudamos cerca de 350 crianças, a maior parte das quais são órfãs e extremamente pobres. Mas a nossa escola é só uma pequena ajuda no mar de necessidades de tantas crianças que não têm a possibilidade de ir à escola. Dois dos meninos da senhora Serafina vão à nossa escola; os mais crescidos têm mais dificuldade, pois a nossa escola é só até ao sétimo ano.
Em Lilanda há muitas outras escolas comunitárias que procuram preencher a lacuna deixada pelo governo que é incapaz de responder às necessidades das populações, sobretudo no que diz respeito à saúde e ao ensino. O resultado é a descriminação que deixa de fora os mais vulneráveis.
O que sempre me impressiona é a enorme vontade que estas crianças têm de ir à escola. Algo que eu nunca vi em Portugal. Procuram todos os meios para o conseguirem e vêm com frequência bater às portas da paróquia. Claro que é impossível ajudar a todos, mas alguns sempre encontram uma resposta, graças à ajuda preciosa de tantos amigos de boa vontade que são generosos na sua partilha com os mais desfavorecidos.
Chimwemwe conseguiu voltar à escola! Os dois meninos da senhora Serafina, também vão à escola. Tantas outras vivem nesta situação de constante incerteza em relação ao seu futuro por não terem ninguém que as ajude! As que o conseguem vêem o seu futuro com um pouco mais de esperança.

Nota: Esta é a história de muitas crianças e famílias de Lilanda. Por isso, “Chimewmwe” e “Serafina” são nomes fictícios.

segunda-feira, junho 07, 2010

Jesus saíu à rua

O Calendário Litúrgico da Igreja proporciona momentos de celebração que envolvem os cristãos de forma muito intensa. Nestes momentos, os cristãos sentem-se mais perto de Deus e, até os que normalmente não praticam, aparecem e juntam-se às multidões que exprimem a sua fé de forma mais activa. O dia do Corpo de Deus é um desses momentos. Em toda a Igreja este dia é revestido de um significado particular por ser a celebração da presença de Deus entre nós através da Eucaristia. Em Lilanda esta celebração é particularmente cheia de movimento e de cor. Assim foi ontem, dia do Corpo de Deus aqui em Lilanda.
Depois da celebração da Eucaristia em que a igreja paroquial se tornou pequena para tanta gente, saímos à rua para a procissão do Corpo de Deus. O percurso foi feito, como habitualmente, através de seis das vinte e quatro Comunidades Eclesiais de Base, com paragem obrigatória em cada uma delas. Cada comunidade preparou antecipadamente uma tenda onde acolheram os seus doentes. À passagem, todos parámos uns momentos para rezar pelos doentes e lhes dar a comunhão. Depois, receberam a bênção do Santíssimo. Foi um momento muito intenso para estes doentes. De facto, o Senhor, como nos seus dias da Galileia, vem ao seu encontro e lhes faz sentir que está perto e se preocupa com eles.
Os cânticos de alegria, acompanhados pelo som dos tambores e pelas danças dos participantes, davam vida e exprimiam a alegria e o entusiasmo dos cristãos por poderem exprimir a sua fé também diante dos que não acreditam. Jesus saiu à rua mais uma vez e atraiu as multidões que o acompanharam ou se juntaram para o ver passar.
Os movimentos apostólicos da paróquia, com as suas cores características davam um aspecto festivo à procissão. À multidão de vários milhares de católicos que tomaram parte na procissão, juntaram-se muitas outras pessoas, incluindo não católicos e não cristãos que, movidos pela curiosidade ou por algo mais profundo, enchiam as ruas do bairro. Todos queriam ver o Senhor passar. E aqueles que, por qualquer motivo, não O conseguiam ver, recorriam à estratégia de Zaqueu, para que a multidão não os impedisse.
A Celebração terminou no recinto da paróquia com um momento de silêncio e adoração.

segunda-feira, maio 17, 2010

Na paz de Jesus

Quando o senhor Nsofwa me veio chamar para ir visitar Albert Banda que, segundo ele, estava para morrer, partimos imediatamente. Eram três da tarde e fazia muito calor! Ponho o meu boné e pego na mochila. Eram só cerca de quinze minutos a pé para chegar à pequena casa onde Albert vivia com a sua esposa Judith e os seus dois filhos pequenos.
Ao entrar na pequena casa, vi-o deitado, no sofá velho e gasto, muito agitado e repetindo palavras que ninguém podia perceber. Movia-se continuamente e respirava com muita dificuldade! O sofrimento era bem visível no seu rosto. Fiquei em silêncio por alguns momentos. Para dizer a verdade, não sabia que dizer. Percebi que estava para morrer.
Rezámos juntos durante alguns momentos. Mas o silêncio parecia ser a única oração com sentido. Albert continuava muito agitado.
Enquanto rezávamos, os meus olhos percorriam o pequeno quarto, meio escuro, em que nos encontrávamos. A pouca luz que havia, passava por uma pequena janela sem vidros, mesmo junto ao lugar onde Albert se encontrava. Os meus olhos pousaram em Judith, a sua esposa que, sentada no chão, permanecia em silêncio com as lágrimas nos olhos.
Quando lhe peguei nas mãos para o ungir com o óleo dos enfermos, Albert ficou em silêncio. Depois, recebeu a comunhão com muita dificuldade ajudado por um pouco de água que lhe foi dada numa caneca de plástico azul que Rosária, a mãe de Judith, lhe trouxera. Algo extraordinário aconteceu. De repente, Albert parecia ter recuperado uma paz profunda: olhou para mim, começou a respirar normalmente, em silêncio, e ficou sossegado.
“Zikomo abambo” dizia Judith ao despedir-se de mim, “munamletera mtendere wa Yesu.” (Obrigado, padre, trouxeste-lhe a paz de Jesus). Parti com lágrimas nos olhos e um nó na garganta. Albert, Judith e os seus dois filhos pequenos no pensamento. Uma semana depois Albert morria… sereno!
Albert pertencia a uma família de políticos que, nunca quiseram saber dele enquanto esteve doente. Na altura do funeral não deixaram que a comunidade cristã organizasse o funeral religioso, contrário à prática dos crentes, não só aqui na paróquia de Lilanda mas na Zâmbia em geral. Por isso, não deixaram que o corpo viesse à igreja.
Quatro ou cinco dias depois do funeral, Judith, agora viúva, entrou no meu escritório com as lágrimas nos olhos. Os olhos inchados mostravam as consequências de várias noites sem dormir e muitas lágrimas derramadas. Para os crentes, não realizar a vontade de alguém que morre é assunto muito sério. E Albert era um homem de muita fé que, mesmo no pico da sua doença, só com muita dificuldade deixava de vir à igreja. Esperava certamente um funeral cristão!
Depois de me explicar como tinha decorrido o funeral, e como os parentes do marido não quiseram ter nada que ver com a igreja, Judith manifestou o desejo de fazer algo para que o seu marido, e ela também, estivessem em paz com Deus, uma vez que ele manifestara o desejo de ter um funeral cristão.
Então sugeri que celebrássemos a missa por ele e que alguns dos ritos fossem também celebrados. São de particular importância os discursos que se fazem para dar a conhecer a vida do defunto, sobretudo a sua vida cristã. Assim ficou combinado. Celebrámos o seu funeral na igreja mesmo se ele já não estava lá. Judith e os seus dois meninos ficaram contentes e em paz.

domingo, julho 12, 2009

Amor que cura


É enfermeira e pertence ao Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria. A Ir. Cândida Figueiredo, natural de Esposende, chegou à África em Janeiro de 2008. Desde então tem-se dedicado à assistência de doentes de SIDA, na pequena clínica ‘Martin Hospice’ em Choma, uma pequena cidade do sul da Zâmbia.
Como outros centros urbanos da Zâmbia, Choma tem sido destino de muita gente vinda de todas as partes do país, à procura de uma vida melhor. Por isso, os ‘compounds’ (zonas residenciais habitadas pelos pobres!) têm crescido muito nos últimos anos. Com eles, vai crescendo também o número de seropositivos, uma realidade que se torna cada vez mais alarmante na Zâmbia.
A pequena clínica, onde trabalha a Ir. Cândida, acolhe cerca de uma dúzia de pacientes seropositivos. Estes vêm, não só dos arredores da pequena cidade de Choma, mas também das zonas rurais à sua volta. Normalmente chegam à clínica quando já não há muito a fazer para lhes melhorar a qualidade de vida. No entanto, alguns dos doentes experimentam melhorias significativas, não tanto pela acção dos medicamentos, mas pelo carinho e atenção de quem cuida deles.
É o caso do Chipo, um jovem de 17 anos, que parecia estar para morrer quando chegou à clínica. Após algumas semanas, parecia uma pessoa diferente. Algo lhe devolvera a vontade de viver. O carinho e os cuidados da Ir. Cândida deram uma esperança nova ao pequeno Chipo. “A Cândida devolveu-lhe a vida”, dizia-me uma das irmãs da sua comunidade quando lhe perguntei por ele.
A Sida continua a ser uma doença que inspira medo! Por isso, até os próprios familiares dos doentes têm dificuldade em lidar com os casos que têm na família. Na maioria dos casos, as crianças seropositivas que perderam os pais, são entregues a familiares que, muitas vezes, não cuidam bem deles e, em alguns casos, expulsam-nos de casa.
Estou a lembrar-me do pequeno Jessely que nasceu seropositivo. Tem 12 anos de idade, mas aparenta 7. Chegou à clínica de Choma há menos de dois meses. Com o tratamento, tem-se sentido melhor. Mas o pensamento de ter que voltar para casa assusta-o. “Não quero voltar para casa! Se volto, os meus tios matam-me!” “O seus olhos espelhavam o medo que lhe ia na alma”, comentava a Ir. Cândida.
Para estes jovens, como para tantos outros doentes da pequena clínica, a Ir. Cândida é muito mais que uma enfermeira. Ela é um sinal do amor misericordioso de Deus que se aproxima dos que sofrem; uma presença amiga que lhes transmite carinho, confiança, vontade de recomeçar a viver e um pouco de alegria, ao fazer-se acompanhar com frequência pela sua viola!
Quando fala dos seus doentes, a Ir. Cândida exprime um grande sentido de gratidão por ter a oportunidade de cuidar eles. Eles são, para ela, o rosto de Jesus, presente nos que sofrem. Ao falar do pequeno Jessely, dizia, “Vou ter saudades dele, é muito amoroso e transmite muita alegria, mesmo no meio do seu sofrimento!”
Fotos:
1) Ir. Cândida com senhora seropositiva na pequena clínica;
2) Com Chipo no início de tratamento;
3) Com Chipo depois de algumas semanas na clínica.

segunda-feira, maio 18, 2009

Deus está onde o pobre vive

A aldeia de Nabaguu, na missão de Nzara no Sul do Sudão, fica a 50 quilómetros da missão, no coração da floresta. A viagem até lá é longa e cansativa. Depois de alguns quilómetros no caminho principal, iniciámos a nossa entrada na floresta por um carreiro estreito e que parecia não ter fim. O calor era muito intenso e a humidade via-se no ar. Depois de várias horas a pedalar por entre árvores enormes e de folhagem exuberante e verde, chegámos.
À nossa chegada encontrámos uma pequena comunidade de cristãos que nos acolheram com uma alegria e entusiasmo que me emocionaram. Sentia-me exausto da longa viagem. Mas a alegria destes cristãos, que já não viam o padre havia três anos, fez-me superar a fadiga e imediatamente os segui até ao lugar que tinham nos preparado para descansar. A alegria que aqueles cristãos simples e pobres expressavam por terem a oportunidade de celebrar a Eucaristia (a primeira vez em três anos!) era, para mim, estímulo e fonte de inspiração.
Apesar de viverem tão longe da missão, e de terem a visita to missionário tão raramente, estes cristãos continuavam a reunir-se todos os domingos para rezar e partilhar a Palavra de Deus, ajudados pelo seu catequista, Lino Mingerevuru; sinal de que o Espírito do Senhor estava aí onde eles vivem e partilham a sua fé. Aparentemente, estes cristãos vivem “perdidos” na floresta, longe de tudo e de todos; mas no meio deles encontrei sinais maravilhosos da presença do Espírito do Senhor que, ontem como hoje, continua a revelar-se nos simples e nos humildes desta terra. Com Jesus, regozijei-me no Espírito e vi com os meus próprios olhos sinais (muitos sinais!), de como Deus se revela nos pobres.
Enquanto preparávamos o programa para o dia seguinte, apresentaram-me Geanmarie Kerekpiogbe (o significado do sobrenome é: “muito-má-morte”) que pedia para ser baptizado. Carregava sempre tudo o que possuía: uma pequena panela, um cobertor e a bengala que o ajudava a caminhar na sua velhice. “Não posso deixar as minhas coisas em casa” disse com resignação. “É que na volta posso não encontrar nada!”, acrescentou.
O encontro com este ancião abriu-me os olhos para a realidade dos pobres e humildes na sua relação com Deus. Enquanto a minha preocupação era se ele sabia o catecismo, ou se sabia rezar, ele surpreendeu-me com estas palavras, que só podem brotar do coração de alguém a quem o Senhor se revela pessoalmente: “Barani, rogo gi sende re mi adu ni boro rungo; mi naida ka zio batisimo ka bata be rungo ariyo.” (Padre, fui um pobre nesta terra; quero ser baptizado para me salvar da pobreza no Céu).
Fiquei sem palavras. A fé deste ancião ajudou-me a perceber que Deus não se preocupa se sabemos ou não as leis, ou se sabemos ou não dizer umas orações. Ajudou-me também a encontrar Deus no encontro com o pobre; aí, onde o pobre vive, Deus vive também. O encontro com o velho Geanmarie, como tantos outros encontros que vou tendo todos os dias, ajudou-me a perceber que Deus se revela nos pobres e humildes, que por sua vez nos revelam ‘coisas’ que ‘os sábios e os inteligentes’ tem dificuldade em entender.

quinta-feira, maio 14, 2009

A Cadeira da diferença

Deitado na cama, no seu quarto pequeno e com pouca luz, Victor Kambanje esperava-nos com ansiedade. Entrámos, um a um, e cumprimentámo-lo, ao que ele respondeu com um sorriso. Passa o seu tempo naquele quartito, contando as horas e os dias, sonhando com a possibilidade de um dia voltar a ver o sol!
Começou a ficar limitado ao espaço do seu quarto quando uma doença degenerativa lhe atrofiou os músculos e os nervos, deixando-o paralisado. Tudo começou aos três anos de idade. Durante muitos anos foi capaz de ir à escola e até encontrou um emprego. Mas a doença foi progredindo. Agora, aos 32 anos de idade, não se mexe.
Vive com os pais, velhinhos, que procuram cuidar dele o melhor que podem, mas também eles com muitas limitações por causa da idade e da situação de pobreza em que vivem. Por isso, sair de casa, para o Victor, continua a ser um sonho. Mas continua a sonhar! ‘Se pelo menos tivesse uma cadeira de rodas!’, dizia ele com as lágrimas nos olhos.
Em casa do Victor não se fala de crise financeira mundial! Não se fala de Companhias Multinacionais que vão à falência nem dos milhões de dólares que os governos investem para as salvar da banca rota! Não se fala dos grandes bancos que provocaram esta crise por causa da ganância e da incompetência dos que os dirigem! O Victor, só quer uma cadeira de rodas! Sim, porque aqui, a crise já chegou há muitos anos! Aquela de que se fala agora só veio agravar a situação dos pobres como o Victor, que vivem abaixo do limiar da pobreza.
Voltando à cadeira de rodas! A vida do Victor mudou no dia em que lhe levámos uma velha cadeira de rodas que tínhamos na paróquia, que já tinha sido utilizada por outros doentes pobres; eu nem sabia da existência dessa cadeira! Ao vê-la, o Victor deixou escapar mais umas lágrimas dos olhos; desta vez, de alegria. Os seus olhos irradiavam luz.
O Victor mostrava agora uma alegria enorme! Não foi um Mercedes que recebeu, nem sequer uma bicicleta de montanha! Foi muito mais do que isso. Agora tem a possibilidade de ver o sol, pois os seus pais sempre serão capazes de o ‘empurrar’ para fora. Já não tem que ficar no seu quarto pequeno e com pouca luz todos os dias. Vê as pessoas passar na rua, pode cumprimentá-las, conversar um pouco. E mais… agora pode ver o sol. De repente, o seu sonho tornou-se realidade. A velha cadeira de rodas, esquecida nas arrumações da paróquia, veio dar nova vida à vida do Victor. Há pequenas coisas que podem fazer a diferença. A velha cadeira de rodas da paróquia fez a diferença!
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