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quinta-feira, junho 10, 2010

Os macacos que salvaram os peixes

A estação das chuvas naquele ano foi das piores de todos os tempos e o rio transbordou. Havia inundações por todo o lado e os animais fugiam para os montes. As águas corriam tão velozmente que muitos animais se afogaram, excepto os macacos sortudos que usavam a sua agilidade para trepar às árvores. Olhavam para baixo para a superfície das águas onde havia peixes a nadar, saltando na água como se fossem as únicas criaturas que estavam felizes com as inundações destruidoras.
Um dos macacos viu os peixes e gritou para o seu companheiro, “Olha para baixo, meu amigo, olha para aquelas pobres criaturas. Vão-se afogar. Vês como andam aflitos na água?”
“Sim”, disse o outro macaco. “Que pena! Provavelmente atrasaram-se a fugir para os montes; pois parece que não têm pernas. Como é que poderemos salvá-los?”
“Acho que devemos fazer alguma coisa. Vamos para mais perto da inundação onde a água não é muito profunda e podemos ajudá-los a sair da água para fora.”
Se assim o disseram, melhor o fizeram. Começaram a apanhar peixe, embora com muita dificuldade. Um a um, tiraram-nos da água e puseram-nos cuidadosamente em terra seca. Algum tempo depois havia uma quantidade enorme de peixe estendidos na erva, sem se mexer. Um dos macacos disse, “Estás a ver? Estão cansados, estão a dormir para repousaram um pouco. Se não fossemos nós, meu amigo, toda esta pobre gente sem pernas se teria afogado.”
“Tentaram fugir de nós,” disse o outro macaco, “porque não estavam a entender as nossas boas intenções. Mas quando acordarem vão ficar muito agradecidos porque os salvámos.”
(História Tradicional da Tanzânia)


domingo, maio 23, 2010

O Chacal espertalhão

“Auú, auú, auú, meus meninos,” disse Gogo. “Sabem, esperteza é uma coisa muito importante que todas as pessoas devem ter! É que a esperteza ajudou Nogwaja uma vez a sair do caldeirão!”
“O chacal também é um animal muito esperto, não é Gogo?” perguntou o pequeno Sipho, que era muito orgulhoso da sua alcunha Mpungushe (mpoo-ngoo-she = chacal). A verdade é que Gogo lhe tinha dado aquele nome por causa de um grande grito que ele deu quando ainda era bebé. Sipho gostava de se convencer a si próprio de que era tão ágil e rápido como o chacal.
Gogo deu uma gargalhada e, olhando para o miúdo disse: “Sim, meu rapaz! Tens razão! O chacal é um animal muito esperto. Às vezes até é esperto de mais”.
“Lembro-me como ele ajudou Jabu, o pequeno pastor, fazendo com que Bhubesi voltasse a cair na armadilha. Gogo, conta-nos mais uma história sobre o Chacal”, suplicou Sipho. “Sim, Gogo,” pediram em coro os outros netos. “Por favor, conta-nos…”
“Está bem, meus meninos. Mas escutai e aprendei!” Gogo acomodou-se. “Kwsuka sukela…”
Era uma vez um chacal que caminhava apressado por um carreiro estreito entre as rochas. Como de costume, mantinha o seu focinho junto ao chão e farejava. “Nunca se sabe quando terei a minha próxima refeição,” pensava consigo próprio, embora fosse pouco provável que encontrasse algum rato no calor do meio-dia. Mas talvez pudesse apanhar uma lagartixa ou duas.
De repente apercebeu-se de algum barulho à sua frente no carreiro. “Oh! não!” Chacal murmurou parando imediatamente. O senhor Leão vinha a caminhar na sua direcção. Apercebendo-se de que estava demasiado próximo para escapar, Chacal ficou aterrorizado. Já tinha pregado tantas partidas ao grande Bhubesi no passado, que tinha quase a certeza de que o leão iria aproveitar para se vingar. Num instante, Chacal pensou num plano.
“Socorro! Socorro!” gritou o Chacal. Agachou-se, olhando para as rochas acima dele. O Leão parou surpreendido.
“Socorro!” O Chacal uivou, usando o medo que sentia no seu peito para dar ainda mais força ao seu grito. Chacal deu uma olhadela a Bhubesi. “Ó grande Nkosi! Socorro! Não há tempo a perder! Vês aquelas grandes rochas lá em cima! Estão mesmo a cair! Vamos ambos ser esmagados!!! Ó grande Leão, faz qualquer coisa! Salva-nos! Chacal agachou-se ainda mais com medo, cobrindo a sua cabeça com as patas.
O Leão olhou para cima, muito alarmado. Mesmo antes de ele ter oportunidade de começar a pensar, o Chacal começou a implorar-lhe que usasse a sua força para segurar a grande rocha que parecia estar para cair. Então o Leão encostou o seu ombro acastanhado contra a rocha e começou a puxar para cima.
“Oh! muito obrigado, grande Rei!” uivou o Chacal. “Eu vou depressa buscar aquele tronco ali em baixo para colocar debaixo da rocha, e ambos estaremos salvos!”
Num instante, o Chacal desapareceu. O Leão ficou ali sozinho aflito debaixo da rocha firme. O tempo que ele ficou ali, antes de dar conta que este era mais um truque, nunca o saberemos. Mas, uma coisa sabemos: o Chacal continuou a viver divido às suas habilidades.
História tradicional Zulu

terça-feira, maio 04, 2010

O Crocodilo Mágico

Quero que Zikomo seja também um espaço de divulgação da cultura africana. Por isso, inicio aqui a publicação de algumas histórias e provérbios africanos. Algumas destas histórias são traduzidas do site da revista comboniana New People, que é publicada em Nairobi, Quénia. Estas histórias e provérbios contêm uma sabedoria que se está a perder na nossa cultura ocidental. Creio que todos podemos aprender muito da cultura oral africana.


O crocodilo mágico
Era uma vez uma caverna. Estava dividida em duas partes, a parte de cima era seca e a parte de baixo tinha água. Na parte de baixo vivia um crocodilo. O crocodilo não vivia sozinho na caverna, pois havia vários animais que viviam lá. Viviam todos na parte seca da caverna e havia também várias outras criaturas que viviam na parte que estava cheia de água. O crocodilo passava a maior parte do seu tempo na água, mas às vezes saía da caverna para um passeio.
Um certo dia um caçador aproximou-se da caverna à procura de animais. Então viu o crocodilo a descansar ao sol à entrada da caverna. O caçador apontou o seu arco e flecha ao crocodilo, mas ficou imediatamente cego. Quando o caçador deixou cair a sua flecha do arco os seus olhos abriram-se novamente. Então viu o crocodilo rir-se com prazer por causa da esperteza do seu truque.
O caçador não ficou ali muito tempo, mas correu para sua aldeia e contou a toda a gente o que se tinha passado. “Quando apontei a minha flecha ao crocodilo fiquei cego”, disse o caçador. Toda a gente na aldeia ficou muito eufórica e, quase metade dos aldeãos, pegaram nos seus arcos e flechas e correram para a caverna.
“Vamos caçar o crocodilo” gritaram em coro. Quando os aldeãos chegaram perto da caverna viram o crocodilo no mesmo lugar onde o caçador o tinha visto, a descansar ao sol à porta da caverna. Quando começaram a apontar os seus arcos e flechas ao crocodilo, ficaram cegos. “Tirai as vossas flechas dos arcos”, disse o caçador. Quando o fizeram, os olhos dos aldeãos começaram a ver novamente.
“Nenhum homem me pode fazer mal”, gritou o crocodilo, virando-se para os aldeãos. O crocodilo saiu do seu lugar e entrou na caverna onde todos os animais o elogiaram por os ter protegido.
“Viveremos as nossas vidas na nossa aldeia”, disseram os aldeãos ao regressarem a casa desiludidos. “Aquele crocodilo ficará na caverna. Não podemos fazer nada para mudar isto”. Mas alguns jovens não ficaram muito satisfeitos. De vez em quando, um jovem corajoso tentava voltar à caverna determinado a matar o crocodilo, mas nunca o conseguiram.
“Ficai cegos com os vossos arcos e flechas,” disse o crocodilo. Naquele tempo, nem o crocodilo nem os aldeãos tinham alguma vez ouvido falar de espingardas.
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