domingo, junho 13, 2010

Mundial ao Contrário

Este apelo foi traduzido do sítio das Missionárias Combonianas Combonifem. É um apelo enviado à embaixadora da Africa do Sul na Itália, tendo como primeiro assinante o P. Alex Zanotelli, missionário comboniano, a favor dos pobres na África do Sul e dos movimentos que procuram defender os seus direitos. A campanha pretende recolher o maior número possível de assinaturas até ao dia 20 de Junho.

Sua Excelência, Embaixadora Thenjiwe Mtintso, somos associações, movimentos de base, cidadãos particulares. Todos carregamos no coração a história da África do Sul, a grande luta dos movimentos de libertação que aí se desenvolveram nas últimas décadas e o destino das populações oprimidas que foram protagonistas dessas lutas. Consideramos que é fundamental para a construção da nova África do Sul a promoção dos direitos e do papel social e político dos pobres.
Estamos particularmente preocupados com o tratamento dado aos habitantes dos bairros de lata e dos vendedores de rua por ocasião do Campeonato do mundo de Futebol. Os habitantes dos bairros de lata são despejados à força de suas casas e obrigados a viver em “transit camps”, enquanto aos vendedores de rua foi proibido vender as suas mercadorias enquanto durar o Campeonato do mundo. Aos pobres não lhes foi concedida a possibilidade de participar na construção de um percurso comum que conduzisse ao Campeonato do mundo. Ao contrário o Campeonato do mundo tornou-se numa oportunidade para reestruturar as cidades segundo critérios que favorecem somente a elite. Os pobres são atirados fora, longe dos olhos dos turistas e dos jornalistas. Por outro lado, as medidas de segurança adoptadas nos Mundiais limitam fortemente o direito que os cidadãos têm de exprimir democraticamente a dissidência em relação a este estado de coisas.
O movimento de base Abahlali base Mjondolo, construindo todos os dias uma democracia real, directa e participada, tem procurado opor-se a tudo isto desde há anos e luta pelo resgate dos mais pobres, pelo direito à terra, a casa, aos serviços básicos e a uma existência digna. Nós partilhamos das lutas deste extraordinário movimento e estamos do seu lado.
O movimento tem sido objecto de acções de repressão e de ataques violentos, o mais grave dos quais em Setembro de 2009 na ocupação espontânea da Kennedy Road em Durban, por dezenas de pessoas armadas, e que causou alguns mortos, a destruição de casas e bens de membros da Abahlali e a fuga de muitos deles para escaparem à violência. Apesar disso, detiveram 13 pessoas de entre as vítimas do ataque. Abahlali base Mjondolo e muitos observadores entre os quais alguns líderes religiosos, associações, ONG’s, académicos e simples cidadãos denunciando o papel ambíguo desenvolvido pela polícia local e pelos dirigentes locais do Anfrican National Congress (ANC). Estes últimos declararam à imprensa que a ocupação da Kennedy Road tinha sido “dispersada”.
No dia 31 de Maio, uma delegação de Abahlali, que se encontrava na Itália no decurso da campanha Mundial ao contrário (Mondiale al contrario), foi recebida na embaixada sul-africana em Roma. Durante o encontro foi pedido que a sua embaixada se fizesse porta-voz das exigências do movimento diante do governo sul-africano. Também nós fazemos nossas as exigências de Abahlali base Mjondolo e, por seu intermédio, pedimos às autoridades sul-africanas:
• Que o presidente Jacob Zuma responda ao memorando apresentado pela Abahlali base Mjondolo no dia 22 de Março 2010;
• Que os “transit camps” sejam abolidos e que os pobres possam ter pleno direito a viver na cidade;
• Que seja instituída uma comissão credível e independente para investigar os eventos ocorridos na Kennedy Road em Setembro de 2009;
• Que sejam imediatamente postos em liberdade Khaliphile Jali, Stutu Koyi, Zandisile Ngutshana, Siyabulela Mambi e Samukeliso Mkhokhelwa, as cinco pessoas ainda detidas injustamente em Westville no seguimento do ataque a Kennedy Road e ainda não informadas, 9 meses depois, sobre as motivações da sua detenção;
• Que as autoridades sul-africanas nacionais e locais se empenhem e garantam o pluralismo político e o direito de associação e de expressão da dissidência em todas as ocupações informais assim como nas cidades interessadas nas manifestações desportivas do Campeonato do mundo.
Certos de que quererá dar ao nosso apelo o peso que merece, apresentamos-lhe saudações especiais.
Pode-se enviar, até 20 de Junho, a adesão própria para carta@carta.org  com assunto “Adesione appelo Sudafrica”, indicando nome e sobrenome, cidade, eventual qualificação profissional e/ou organização à qual pertence. O número e os nomes dos aderentes serão apresentados nas páginas Web de Carta. Será transmitido regularmente à Embaixada da África do Sul um relatório sobre o andamento da recolha de adesões.

quinta-feira, junho 10, 2010

Os macacos que salvaram os peixes

A estação das chuvas naquele ano foi das piores de todos os tempos e o rio transbordou. Havia inundações por todo o lado e os animais fugiam para os montes. As águas corriam tão velozmente que muitos animais se afogaram, excepto os macacos sortudos que usavam a sua agilidade para trepar às árvores. Olhavam para baixo para a superfície das águas onde havia peixes a nadar, saltando na água como se fossem as únicas criaturas que estavam felizes com as inundações destruidoras.
Um dos macacos viu os peixes e gritou para o seu companheiro, “Olha para baixo, meu amigo, olha para aquelas pobres criaturas. Vão-se afogar. Vês como andam aflitos na água?”
“Sim”, disse o outro macaco. “Que pena! Provavelmente atrasaram-se a fugir para os montes; pois parece que não têm pernas. Como é que poderemos salvá-los?”
“Acho que devemos fazer alguma coisa. Vamos para mais perto da inundação onde a água não é muito profunda e podemos ajudá-los a sair da água para fora.”
Se assim o disseram, melhor o fizeram. Começaram a apanhar peixe, embora com muita dificuldade. Um a um, tiraram-nos da água e puseram-nos cuidadosamente em terra seca. Algum tempo depois havia uma quantidade enorme de peixe estendidos na erva, sem se mexer. Um dos macacos disse, “Estás a ver? Estão cansados, estão a dormir para repousaram um pouco. Se não fossemos nós, meu amigo, toda esta pobre gente sem pernas se teria afogado.”
“Tentaram fugir de nós,” disse o outro macaco, “porque não estavam a entender as nossas boas intenções. Mas quando acordarem vão ficar muito agradecidos porque os salvámos.”
(História Tradicional da Tanzânia)


segunda-feira, junho 07, 2010

Jesus saíu à rua

O Calendário Litúrgico da Igreja proporciona momentos de celebração que envolvem os cristãos de forma muito intensa. Nestes momentos, os cristãos sentem-se mais perto de Deus e, até os que normalmente não praticam, aparecem e juntam-se às multidões que exprimem a sua fé de forma mais activa. O dia do Corpo de Deus é um desses momentos. Em toda a Igreja este dia é revestido de um significado particular por ser a celebração da presença de Deus entre nós através da Eucaristia. Em Lilanda esta celebração é particularmente cheia de movimento e de cor. Assim foi ontem, dia do Corpo de Deus aqui em Lilanda.
Depois da celebração da Eucaristia em que a igreja paroquial se tornou pequena para tanta gente, saímos à rua para a procissão do Corpo de Deus. O percurso foi feito, como habitualmente, através de seis das vinte e quatro Comunidades Eclesiais de Base, com paragem obrigatória em cada uma delas. Cada comunidade preparou antecipadamente uma tenda onde acolheram os seus doentes. À passagem, todos parámos uns momentos para rezar pelos doentes e lhes dar a comunhão. Depois, receberam a bênção do Santíssimo. Foi um momento muito intenso para estes doentes. De facto, o Senhor, como nos seus dias da Galileia, vem ao seu encontro e lhes faz sentir que está perto e se preocupa com eles.
Os cânticos de alegria, acompanhados pelo som dos tambores e pelas danças dos participantes, davam vida e exprimiam a alegria e o entusiasmo dos cristãos por poderem exprimir a sua fé também diante dos que não acreditam. Jesus saiu à rua mais uma vez e atraiu as multidões que o acompanharam ou se juntaram para o ver passar.
Os movimentos apostólicos da paróquia, com as suas cores características davam um aspecto festivo à procissão. À multidão de vários milhares de católicos que tomaram parte na procissão, juntaram-se muitas outras pessoas, incluindo não católicos e não cristãos que, movidos pela curiosidade ou por algo mais profundo, enchiam as ruas do bairro. Todos queriam ver o Senhor passar. E aqueles que, por qualquer motivo, não O conseguiam ver, recorriam à estratégia de Zaqueu, para que a multidão não os impedisse.
A Celebração terminou no recinto da paróquia com um momento de silêncio e adoração.

quarta-feira, junho 02, 2010

Governo da Zâmbia ataca a Igreja Católica

O governo da Zâmbia iniciou uma investida contra a Igreja Católica por esta, alegadamente, se ter colocado do lado da oposição na crítica ao governo. Na quarta-feira, 2 de Junho, o jornal diário The Post publicou uma notícia relativa a mais uma entrevista dada pelo arcebispo de Lusaka D. Telesphore George Mpundu que tem estado na vanguarda nas críticas ao governo.
“O arcebispo Mpundu declarou que a Igreja Católica não será intimidada mesmo se ela tem sido considerada como a maior ameaça à busca de poder absoluto por parte do poder político”, afirma o The Post, que é o jornal independente de maior relevo no país.
A polémica criada à volta da Igreja Católica foi reacendida pelo antigo presidente da Zâmbia Frederick Chiluba, quando há cerca de três meses, acusou a Igreja de ter uma agenda política e de querer derrubar o governo. Fez também um ataque pessoal ao arcebispo de Lusaka na tentativa de denegrir o seu bom nome e o bom nome da Igreja.
Desde essa altura, os ataques do governo têm-se repetido e intensificado. Mas a “Igreja não deixará de se colocar do lado dos pobres e dos sem voz,” afirma o arcebispo.
“O ódio contra os católicos tem a sua origem na percepção errada de que o Arcebispo Mpundu tem ambições políticas e que a Igreja Católica tem uma agenda política e quer governar esta nação,” afirma o referido artigo.
Nas palavras do arcebispo, “os líderes da Igreja Católica, juntamente com os fiéis, continuarão a promover a Doutrina Social da Igreja e o bem comum de todos, particularmente dos pobres, dos fracos e dos sem voz. Ela não se deixará intimidar”.
Enviando também as suas críticas aos meios de comunicação social locais, o arcebispo afirmou que eles não “devem ser instrumentos de propaganda dos que exercem o poder”. Os sucessivos governos têm despojado os meios de comunicação da sua independência e liberdade de expressão.

domingo, maio 23, 2010

O Chacal espertalhão

“Auú, auú, auú, meus meninos,” disse Gogo. “Sabem, esperteza é uma coisa muito importante que todas as pessoas devem ter! É que a esperteza ajudou Nogwaja uma vez a sair do caldeirão!”
“O chacal também é um animal muito esperto, não é Gogo?” perguntou o pequeno Sipho, que era muito orgulhoso da sua alcunha Mpungushe (mpoo-ngoo-she = chacal). A verdade é que Gogo lhe tinha dado aquele nome por causa de um grande grito que ele deu quando ainda era bebé. Sipho gostava de se convencer a si próprio de que era tão ágil e rápido como o chacal.
Gogo deu uma gargalhada e, olhando para o miúdo disse: “Sim, meu rapaz! Tens razão! O chacal é um animal muito esperto. Às vezes até é esperto de mais”.
“Lembro-me como ele ajudou Jabu, o pequeno pastor, fazendo com que Bhubesi voltasse a cair na armadilha. Gogo, conta-nos mais uma história sobre o Chacal”, suplicou Sipho. “Sim, Gogo,” pediram em coro os outros netos. “Por favor, conta-nos…”
“Está bem, meus meninos. Mas escutai e aprendei!” Gogo acomodou-se. “Kwsuka sukela…”
Era uma vez um chacal que caminhava apressado por um carreiro estreito entre as rochas. Como de costume, mantinha o seu focinho junto ao chão e farejava. “Nunca se sabe quando terei a minha próxima refeição,” pensava consigo próprio, embora fosse pouco provável que encontrasse algum rato no calor do meio-dia. Mas talvez pudesse apanhar uma lagartixa ou duas.
De repente apercebeu-se de algum barulho à sua frente no carreiro. “Oh! não!” Chacal murmurou parando imediatamente. O senhor Leão vinha a caminhar na sua direcção. Apercebendo-se de que estava demasiado próximo para escapar, Chacal ficou aterrorizado. Já tinha pregado tantas partidas ao grande Bhubesi no passado, que tinha quase a certeza de que o leão iria aproveitar para se vingar. Num instante, Chacal pensou num plano.
“Socorro! Socorro!” gritou o Chacal. Agachou-se, olhando para as rochas acima dele. O Leão parou surpreendido.
“Socorro!” O Chacal uivou, usando o medo que sentia no seu peito para dar ainda mais força ao seu grito. Chacal deu uma olhadela a Bhubesi. “Ó grande Nkosi! Socorro! Não há tempo a perder! Vês aquelas grandes rochas lá em cima! Estão mesmo a cair! Vamos ambos ser esmagados!!! Ó grande Leão, faz qualquer coisa! Salva-nos! Chacal agachou-se ainda mais com medo, cobrindo a sua cabeça com as patas.
O Leão olhou para cima, muito alarmado. Mesmo antes de ele ter oportunidade de começar a pensar, o Chacal começou a implorar-lhe que usasse a sua força para segurar a grande rocha que parecia estar para cair. Então o Leão encostou o seu ombro acastanhado contra a rocha e começou a puxar para cima.
“Oh! muito obrigado, grande Rei!” uivou o Chacal. “Eu vou depressa buscar aquele tronco ali em baixo para colocar debaixo da rocha, e ambos estaremos salvos!”
Num instante, o Chacal desapareceu. O Leão ficou ali sozinho aflito debaixo da rocha firme. O tempo que ele ficou ali, antes de dar conta que este era mais um truque, nunca o saberemos. Mas, uma coisa sabemos: o Chacal continuou a viver divido às suas habilidades.
História tradicional Zulu

quarta-feira, maio 19, 2010

Novos desafios

 Kanyanga é a nova missão confiada aos Missionários Combonianos na Zâmbia. Fica situada no vale do Rio Luangwa, numa zona remota do país, a cerca de 820 km de Lusaka, habitada por gente extremamente pobre. O trabalho missionário aí desenvolvido é essencialmente de primeira evangelização e desenvolvimento social.
Esta missão fora iniciada pelos Padres Brancos em 1954, mas posteriormente abandonada, durante muitos anos, por falta de pessoal. A sua gente em geral e os cristãos em particular, vêem agora, com esperança, o início de uma nova era.
A comunidade comboniana de Kanyanga foi oficialmente aberta no sábado, 1 de Maio e a entrega da missão aos Missionários Combonianos foi feita no dia seguinte. Formam a nova comunidade os padres Rodolfo Coaquira (peruviano) e Rúben Bojorquez (mexicano). O P. Dário Chaves, superior dos Missionários Combonianos no Malawi/Zâmbia, esteve presente na abertura da nova comunidade e na passagem do testemunho.
Em Kanyanga existe também um pequeno hospital dirigido por uma congregação missionária que já se encontrava aí, antes da chegada dos Missionários Combonianos.
“Sabemos que temos muitos desafios pela frente,” dizia-me o P. Rúben, “mas estou muito contente por ter sido enviado para aqui”. De facto, os desafios são enormes, pois não há infra-estruturas, estradas, electricidade, etc. Por isso, sobretudo na estação das chuvas, a actividade missionária é muito limitada. Mas isso não incomoda os dois missionários, que iniciaram já a visita porta a porta aos cerca de sete mil cristãos que formam as comunidades cristãs de Kanyanga.
Apesar de todos os desafios, há sempre muito trabalho que fazer. Mas, “o mais importante,” dizia o P. Rúben, “é gastar o nosso tempo e a nossa vida com esta gente.”
O missionário não pode perder o espírito de aventura que caracteriza o voto de obediência. Partir para situações sempre novas com a convicção de que é aí que o Senhor nos quer. Boa missão para o Rúben e o Rodolfo. Um destes dias, quem sabe, vou juntar-me à comitiva!


segunda-feira, maio 17, 2010

Na paz de Jesus

Quando o senhor Nsofwa me veio chamar para ir visitar Albert Banda que, segundo ele, estava para morrer, partimos imediatamente. Eram três da tarde e fazia muito calor! Ponho o meu boné e pego na mochila. Eram só cerca de quinze minutos a pé para chegar à pequena casa onde Albert vivia com a sua esposa Judith e os seus dois filhos pequenos.
Ao entrar na pequena casa, vi-o deitado, no sofá velho e gasto, muito agitado e repetindo palavras que ninguém podia perceber. Movia-se continuamente e respirava com muita dificuldade! O sofrimento era bem visível no seu rosto. Fiquei em silêncio por alguns momentos. Para dizer a verdade, não sabia que dizer. Percebi que estava para morrer.
Rezámos juntos durante alguns momentos. Mas o silêncio parecia ser a única oração com sentido. Albert continuava muito agitado.
Enquanto rezávamos, os meus olhos percorriam o pequeno quarto, meio escuro, em que nos encontrávamos. A pouca luz que havia, passava por uma pequena janela sem vidros, mesmo junto ao lugar onde Albert se encontrava. Os meus olhos pousaram em Judith, a sua esposa que, sentada no chão, permanecia em silêncio com as lágrimas nos olhos.
Quando lhe peguei nas mãos para o ungir com o óleo dos enfermos, Albert ficou em silêncio. Depois, recebeu a comunhão com muita dificuldade ajudado por um pouco de água que lhe foi dada numa caneca de plástico azul que Rosária, a mãe de Judith, lhe trouxera. Algo extraordinário aconteceu. De repente, Albert parecia ter recuperado uma paz profunda: olhou para mim, começou a respirar normalmente, em silêncio, e ficou sossegado.
“Zikomo abambo” dizia Judith ao despedir-se de mim, “munamletera mtendere wa Yesu.” (Obrigado, padre, trouxeste-lhe a paz de Jesus). Parti com lágrimas nos olhos e um nó na garganta. Albert, Judith e os seus dois filhos pequenos no pensamento. Uma semana depois Albert morria… sereno!
Albert pertencia a uma família de políticos que, nunca quiseram saber dele enquanto esteve doente. Na altura do funeral não deixaram que a comunidade cristã organizasse o funeral religioso, contrário à prática dos crentes, não só aqui na paróquia de Lilanda mas na Zâmbia em geral. Por isso, não deixaram que o corpo viesse à igreja.
Quatro ou cinco dias depois do funeral, Judith, agora viúva, entrou no meu escritório com as lágrimas nos olhos. Os olhos inchados mostravam as consequências de várias noites sem dormir e muitas lágrimas derramadas. Para os crentes, não realizar a vontade de alguém que morre é assunto muito sério. E Albert era um homem de muita fé que, mesmo no pico da sua doença, só com muita dificuldade deixava de vir à igreja. Esperava certamente um funeral cristão!
Depois de me explicar como tinha decorrido o funeral, e como os parentes do marido não quiseram ter nada que ver com a igreja, Judith manifestou o desejo de fazer algo para que o seu marido, e ela também, estivessem em paz com Deus, uma vez que ele manifestara o desejo de ter um funeral cristão.
Então sugeri que celebrássemos a missa por ele e que alguns dos ritos fossem também celebrados. São de particular importância os discursos que se fazem para dar a conhecer a vida do defunto, sobretudo a sua vida cristã. Assim ficou combinado. Celebrámos o seu funeral na igreja mesmo se ele já não estava lá. Judith e os seus dois meninos ficaram contentes e em paz.

terça-feira, maio 04, 2010

O Crocodilo Mágico

Quero que Zikomo seja também um espaço de divulgação da cultura africana. Por isso, inicio aqui a publicação de algumas histórias e provérbios africanos. Algumas destas histórias são traduzidas do site da revista comboniana New People, que é publicada em Nairobi, Quénia. Estas histórias e provérbios contêm uma sabedoria que se está a perder na nossa cultura ocidental. Creio que todos podemos aprender muito da cultura oral africana.


O crocodilo mágico
Era uma vez uma caverna. Estava dividida em duas partes, a parte de cima era seca e a parte de baixo tinha água. Na parte de baixo vivia um crocodilo. O crocodilo não vivia sozinho na caverna, pois havia vários animais que viviam lá. Viviam todos na parte seca da caverna e havia também várias outras criaturas que viviam na parte que estava cheia de água. O crocodilo passava a maior parte do seu tempo na água, mas às vezes saía da caverna para um passeio.
Um certo dia um caçador aproximou-se da caverna à procura de animais. Então viu o crocodilo a descansar ao sol à entrada da caverna. O caçador apontou o seu arco e flecha ao crocodilo, mas ficou imediatamente cego. Quando o caçador deixou cair a sua flecha do arco os seus olhos abriram-se novamente. Então viu o crocodilo rir-se com prazer por causa da esperteza do seu truque.
O caçador não ficou ali muito tempo, mas correu para sua aldeia e contou a toda a gente o que se tinha passado. “Quando apontei a minha flecha ao crocodilo fiquei cego”, disse o caçador. Toda a gente na aldeia ficou muito eufórica e, quase metade dos aldeãos, pegaram nos seus arcos e flechas e correram para a caverna.
“Vamos caçar o crocodilo” gritaram em coro. Quando os aldeãos chegaram perto da caverna viram o crocodilo no mesmo lugar onde o caçador o tinha visto, a descansar ao sol à porta da caverna. Quando começaram a apontar os seus arcos e flechas ao crocodilo, ficaram cegos. “Tirai as vossas flechas dos arcos”, disse o caçador. Quando o fizeram, os olhos dos aldeãos começaram a ver novamente.
“Nenhum homem me pode fazer mal”, gritou o crocodilo, virando-se para os aldeãos. O crocodilo saiu do seu lugar e entrou na caverna onde todos os animais o elogiaram por os ter protegido.
“Viveremos as nossas vidas na nossa aldeia”, disseram os aldeãos ao regressarem a casa desiludidos. “Aquele crocodilo ficará na caverna. Não podemos fazer nada para mudar isto”. Mas alguns jovens não ficaram muito satisfeitos. De vez em quando, um jovem corajoso tentava voltar à caverna determinado a matar o crocodilo, mas nunca o conseguiram.
“Ficai cegos com os vossos arcos e flechas,” disse o crocodilo. Naquele tempo, nem o crocodilo nem os aldeãos tinham alguma vez ouvido falar de espingardas.

segunda-feira, abril 19, 2010

Pior Surto de Cólera dos Últimos Anos em Lusaka

Em Lusaka, a capital da Zâmbia, está a assistir-se ao pior surto de Cólera dos últimos anos. São os Médicos Sem Fronteiras que o afirmam num comunicado à imprensa datado de 12 de Abril de 2010. Segundo esse comunicado, “durante as últimas cinco semanas o número de casos de Cólera subiu dramaticamente acima de 4.500, e mais de 120 pessoas perderam as suas vidas”.

Centros Provisórios de Tratamento
Neste momento, a preocupação dos Médicos Sem Fronteiras é conter a doença. Para isso criaram três centros de tratamento de Cólera (CTC) em Matero, Chawama e Kanyama. O número de casos é, de facto, alarmante. Em colaboração com o Ministério da Saúde da Zâmbia, os Médicos Sem Fronteiras trataram já 4.020 doentes desde o dia 4 de Março.
Nestes centros montaram um número elevado de tendas provisórias para facilitar o internamento e tratamento dos casos que chegam diariamente. “Na semana passada”, diz o mesmo comunicado, “assistimos ao ponto mais alto deste surto com mais de 1.054 internamentos”. Por isso, há agora alguma esperança de que o número de casos comece a diminuir.
Na semana passada fui visitar um desses CTC em Matero, uma vez que é o centro que serve a zona de Lilanda onde me encontro. Uma das responsáveis pelo CTC de Matero disse-me que não estão autorizados a falar nem a deixar ninguém visitar o centro. Depois de conversarmos um pouco, deixou-me fotografar as tendas. Certamente nos dá uma ideia das dimensões da situação e do secretismo que se criou à sua volta.

Necessidade de Água Potável e Instalações Sanitárias
A propagação da Cólera tem a ver com a qualidade da água e dos esgotos. Por isso, os Médicos Sem Fronteiras estão a fazer um grande esforço para fazer chegar água potável às populações das áreas mais pobres da cidade.
Quando falamos de Cólera na Zâmbia, não falamos nada de novo, pois ela é endémica. A situação repete-se ano após ano durante a estação da chuva. Aqui em Lilanda, o número de casos tem sido muito reduzido devido a um projecto de abastecimento de água que o Governo do Japão desenvolveu nesta área em parceria com o Governo da Zâmbia; este projecto proporciona água potável a toda esta área da cidade, abrangendo uma população de mais de 100 mil pessoas.
As zonas mais afectadas pela Cólera (e por outras doenças como a Sida, Tuberculose, etc.) são as zonas pobres da cidade; estas zonas são normalmente abandonadas pelos políticos que só aparecem em tempo de eleições. Talvez um dia o Governo se dê conta que estes são também cidadãos da Zâmbia.

segunda-feira, março 29, 2010

Ele está vivo!

Os eventos daquela madrugada do Primeiro Dia da semana mudaram tudo! A partir de agora nada seria como dantes! O sepulcro ficara vazio. Foi como que uma explosão cujo clarão continua a iluminar as vidas dos que acreditam e cujo calor incendeia os corações dos amigos de Jesus.
A desilusão e o desânimo dão lugar à esperança; o medo dá lugar ao entusiasmo e à coragem; a tristeza dá lugar à alegria; o ódio dá lugar ao perdão; a dúvida dá lugar à certeza; a morte na cruz dá lugar à vida da ressurreição! E os que se tinham escondido, aterrorizados pelos acontecimentos daquela Sexta-feira em Jerusalém, vêm agora para as ruas movidos por uma força que não é sua, mas que os impele e move em todas as direcções!
Continuamos hoje a viver os mesmos acontecimentos na fé! O fogo que ardia nos corações dos amigos de Jesus, continua a arder no meu coração! Talvez não tenha a mesma fé dos que testemunharam tudo desde o início, e às vezes o medo e a dúvida estejam presentes! Mas a alegria desta vida nova que está também em mim, deve irradiar uma esperança que só o Senhor ressuscitado pode dar.
Também eu, como as mulheres que encontraram o Senhor ressuscitado, sou convidado a ir contar aos meus irmãos que Ele está vivo e me precede nos caminhos de Lilanda (a minha Galileia!). Sim, Ele precede-me onde quer que eu vá! E eu sei que Ele está vivo!
Sim, Ele está vivo! Há muitos irmãos que continuam a ser crucificados e para quem a morte parece ter a última palavra! Mas Ele anda por aí! A sua força continua a animar muitos dos seus amigos! Por isso continuamos a acreditar na sua Boa Nova!
Vamos! Contemos aos seus irmãos! Ele está vivo!
Boa Páscoa!

quarta-feira, outubro 07, 2009

De volta a Lilanda

Caríssimos amigos e amigas,
Depois de umas férias em Portugal, aqui estou eu de volta a Lilanda, completamente recauchutado! E, embora ainda não tenha recuperado completamente do ritmo das férias, agora é só arregaçar as mangas e deitar mãos à obra.
Durante as férias encontrei-me com muitos amigos, falei com outros pelo telefone! Outros, prometi visitá-los e não consegui! Parece que, durante as férias, o tempo passa muito mais depressa e, quando damos por ela, já eram!!! Mas recordo a todos sempre com muita gratidão e amizade. Desculpem-me os que não consegui visitar!
Mas Lilanda é a minha terra prometida! Por isso, estou muito feliz por ter voltado, mesmo se encontrei desafios novos para enfrentar! A vida missionária é mesmo assim! E os vários projectos da paróquia (a escola comunitária, o programa de assistência e ajuda a doentes de Sida…) não nos dão tréguas.
A Escola Comunitária St. Joseph, é uma escola para meninos órfãos da nossa paróquia de Lilanda! Este ano temos 368 meninos e meninas a frequentar as aulas. Há tantos outros que não têm oportunidade de ir à escola! Este é um dos projectos prioritários da paróquia! Falarei dele em detalhe mais tarde num artigo que estou a preparar para publicar aqui no blogue.
O programa de assistência aos doentes de Sida é outro projecto prioritário para nós, uma vez que o número de infectados com o vírus HIV cresce dramaticamente todos os dias! Até agora temos tido sorte, pois este projecto tem vindo a ser patrocinado por algumas organizações, por intermédio da Arquidiocese de Lusaka, o que não acontece com a escola, que depende do esforço dos cristãos da paróquia e de outras pessoas de boa vontade! Também deste projecto falarei no mencionado artigo!
O meu serviço missionário, aqui em Lilanda, tem sido uma verdadeira experiência de Deus! O encontro com o pobre e o doente; o confronto diário com a precariedade da vida; a sensação de impotência perante os vários desafios com que me defronto diariamente… Tudo isto me coloca interrogações às quais só Deus pode responder! Devo dizer que tenho aprendido, com esta gente, a confiar mais em Deus e a acreditar que só ele é o Senhor da vinha, e nós, pobres trabalhadores!
Hoje mesmo visitei uma senhora muito doente! Impressionou-me, como aliás me impressiona sempre, a alegria que exprimiu ao receber a minha visita! ‘Zikomo abambo,’ dizia, ‘mwandibweretsera Yesu!’ (Obrigado padre, trouxeste-me Jesus). E deixou escapar umas lágrimas, enquanto falava comigo. Deus mostra-se assim presente no meio do pobre através da nossa presença pobre! Mas é, certamente, através da nossa pobreza que Ele quer continuar a salvar!
Ao escrever-vos estas palavras, exprimo, mais uma vez, a minha gratidão pelo apoio de todos, e continuo a pedir a vossa oração! O vosso apoio e comunhão são expressão da vossa participação na missão que é de todos nós, cristãos.
Fiquem com Deus! Eu continuo também a rezar por vocês todos.
Um abraço muito amigo!


domingo, julho 12, 2009

Amor que cura


É enfermeira e pertence ao Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria. A Ir. Cândida Figueiredo, natural de Esposende, chegou à África em Janeiro de 2008. Desde então tem-se dedicado à assistência de doentes de SIDA, na pequena clínica ‘Martin Hospice’ em Choma, uma pequena cidade do sul da Zâmbia.
Como outros centros urbanos da Zâmbia, Choma tem sido destino de muita gente vinda de todas as partes do país, à procura de uma vida melhor. Por isso, os ‘compounds’ (zonas residenciais habitadas pelos pobres!) têm crescido muito nos últimos anos. Com eles, vai crescendo também o número de seropositivos, uma realidade que se torna cada vez mais alarmante na Zâmbia.
A pequena clínica, onde trabalha a Ir. Cândida, acolhe cerca de uma dúzia de pacientes seropositivos. Estes vêm, não só dos arredores da pequena cidade de Choma, mas também das zonas rurais à sua volta. Normalmente chegam à clínica quando já não há muito a fazer para lhes melhorar a qualidade de vida. No entanto, alguns dos doentes experimentam melhorias significativas, não tanto pela acção dos medicamentos, mas pelo carinho e atenção de quem cuida deles.
É o caso do Chipo, um jovem de 17 anos, que parecia estar para morrer quando chegou à clínica. Após algumas semanas, parecia uma pessoa diferente. Algo lhe devolvera a vontade de viver. O carinho e os cuidados da Ir. Cândida deram uma esperança nova ao pequeno Chipo. “A Cândida devolveu-lhe a vida”, dizia-me uma das irmãs da sua comunidade quando lhe perguntei por ele.
A Sida continua a ser uma doença que inspira medo! Por isso, até os próprios familiares dos doentes têm dificuldade em lidar com os casos que têm na família. Na maioria dos casos, as crianças seropositivas que perderam os pais, são entregues a familiares que, muitas vezes, não cuidam bem deles e, em alguns casos, expulsam-nos de casa.
Estou a lembrar-me do pequeno Jessely que nasceu seropositivo. Tem 12 anos de idade, mas aparenta 7. Chegou à clínica de Choma há menos de dois meses. Com o tratamento, tem-se sentido melhor. Mas o pensamento de ter que voltar para casa assusta-o. “Não quero voltar para casa! Se volto, os meus tios matam-me!” “O seus olhos espelhavam o medo que lhe ia na alma”, comentava a Ir. Cândida.
Para estes jovens, como para tantos outros doentes da pequena clínica, a Ir. Cândida é muito mais que uma enfermeira. Ela é um sinal do amor misericordioso de Deus que se aproxima dos que sofrem; uma presença amiga que lhes transmite carinho, confiança, vontade de recomeçar a viver e um pouco de alegria, ao fazer-se acompanhar com frequência pela sua viola!
Quando fala dos seus doentes, a Ir. Cândida exprime um grande sentido de gratidão por ter a oportunidade de cuidar eles. Eles são, para ela, o rosto de Jesus, presente nos que sofrem. Ao falar do pequeno Jessely, dizia, “Vou ter saudades dele, é muito amoroso e transmite muita alegria, mesmo no meio do seu sofrimento!”
Fotos:
1) Ir. Cândida com senhora seropositiva na pequena clínica;
2) Com Chipo no início de tratamento;
3) Com Chipo depois de algumas semanas na clínica.

quinta-feira, junho 25, 2009

Macaco urina em cima do Presidente da Zâmbia

Rupiah Banda, presidente da Zâmbia, foi surpreendido quarta-feira, dia 24 de Junho, por um macaco descontente enquanto dava uma conferência de imprensa sobre o estado da economia da nação. O que lhe valeu foi ter bom sentido de humor! Enquanto falava, um macaco atrevido decidiu subir à árvore sob a qual o líder zambiano estava a dar a dita conferência de imprensa e, literalmente lhe urinou em cima.
É mesmo caso para dizer que a política está sempre cheia de surpresas. Até parecia uma conspiração da oposição!
A conferência de imprensa foi dada nos jardins da residência oficial do presidente onde, para além dos atrevidos macacos, vivem outros tipos de animais como antílopes e vários tipos de aves. Certamente esta acção do insigne macaco foi um grande sinal de que a liberdade de expressão chegou à residência do presidente. E Rupiah Banda nem sequer se zangou! Talvez fosse mesmo uma bênção!
O que falta saber é se o macaco quis somente pregar uma partida, ou se foi mesmo uma expressão de descontentamento pela crise económica que atravessa o país.
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