segunda-feira, maio 17, 2010

Na paz de Jesus

Quando o senhor Nsofwa me veio chamar para ir visitar Albert Banda que, segundo ele, estava para morrer, partimos imediatamente. Eram três da tarde e fazia muito calor! Ponho o meu boné e pego na mochila. Eram só cerca de quinze minutos a pé para chegar à pequena casa onde Albert vivia com a sua esposa Judith e os seus dois filhos pequenos.
Ao entrar na pequena casa, vi-o deitado, no sofá velho e gasto, muito agitado e repetindo palavras que ninguém podia perceber. Movia-se continuamente e respirava com muita dificuldade! O sofrimento era bem visível no seu rosto. Fiquei em silêncio por alguns momentos. Para dizer a verdade, não sabia que dizer. Percebi que estava para morrer.
Rezámos juntos durante alguns momentos. Mas o silêncio parecia ser a única oração com sentido. Albert continuava muito agitado.
Enquanto rezávamos, os meus olhos percorriam o pequeno quarto, meio escuro, em que nos encontrávamos. A pouca luz que havia, passava por uma pequena janela sem vidros, mesmo junto ao lugar onde Albert se encontrava. Os meus olhos pousaram em Judith, a sua esposa que, sentada no chão, permanecia em silêncio com as lágrimas nos olhos.
Quando lhe peguei nas mãos para o ungir com o óleo dos enfermos, Albert ficou em silêncio. Depois, recebeu a comunhão com muita dificuldade ajudado por um pouco de água que lhe foi dada numa caneca de plástico azul que Rosária, a mãe de Judith, lhe trouxera. Algo extraordinário aconteceu. De repente, Albert parecia ter recuperado uma paz profunda: olhou para mim, começou a respirar normalmente, em silêncio, e ficou sossegado.
“Zikomo abambo” dizia Judith ao despedir-se de mim, “munamletera mtendere wa Yesu.” (Obrigado, padre, trouxeste-lhe a paz de Jesus). Parti com lágrimas nos olhos e um nó na garganta. Albert, Judith e os seus dois filhos pequenos no pensamento. Uma semana depois Albert morria… sereno!
Albert pertencia a uma família de políticos que, nunca quiseram saber dele enquanto esteve doente. Na altura do funeral não deixaram que a comunidade cristã organizasse o funeral religioso, contrário à prática dos crentes, não só aqui na paróquia de Lilanda mas na Zâmbia em geral. Por isso, não deixaram que o corpo viesse à igreja.
Quatro ou cinco dias depois do funeral, Judith, agora viúva, entrou no meu escritório com as lágrimas nos olhos. Os olhos inchados mostravam as consequências de várias noites sem dormir e muitas lágrimas derramadas. Para os crentes, não realizar a vontade de alguém que morre é assunto muito sério. E Albert era um homem de muita fé que, mesmo no pico da sua doença, só com muita dificuldade deixava de vir à igreja. Esperava certamente um funeral cristão!
Depois de me explicar como tinha decorrido o funeral, e como os parentes do marido não quiseram ter nada que ver com a igreja, Judith manifestou o desejo de fazer algo para que o seu marido, e ela também, estivessem em paz com Deus, uma vez que ele manifestara o desejo de ter um funeral cristão.
Então sugeri que celebrássemos a missa por ele e que alguns dos ritos fossem também celebrados. São de particular importância os discursos que se fazem para dar a conhecer a vida do defunto, sobretudo a sua vida cristã. Assim ficou combinado. Celebrámos o seu funeral na igreja mesmo se ele já não estava lá. Judith e os seus dois meninos ficaram contentes e em paz.

terça-feira, maio 04, 2010

O Crocodilo Mágico

Quero que Zikomo seja também um espaço de divulgação da cultura africana. Por isso, inicio aqui a publicação de algumas histórias e provérbios africanos. Algumas destas histórias são traduzidas do site da revista comboniana New People, que é publicada em Nairobi, Quénia. Estas histórias e provérbios contêm uma sabedoria que se está a perder na nossa cultura ocidental. Creio que todos podemos aprender muito da cultura oral africana.


O crocodilo mágico
Era uma vez uma caverna. Estava dividida em duas partes, a parte de cima era seca e a parte de baixo tinha água. Na parte de baixo vivia um crocodilo. O crocodilo não vivia sozinho na caverna, pois havia vários animais que viviam lá. Viviam todos na parte seca da caverna e havia também várias outras criaturas que viviam na parte que estava cheia de água. O crocodilo passava a maior parte do seu tempo na água, mas às vezes saía da caverna para um passeio.
Um certo dia um caçador aproximou-se da caverna à procura de animais. Então viu o crocodilo a descansar ao sol à entrada da caverna. O caçador apontou o seu arco e flecha ao crocodilo, mas ficou imediatamente cego. Quando o caçador deixou cair a sua flecha do arco os seus olhos abriram-se novamente. Então viu o crocodilo rir-se com prazer por causa da esperteza do seu truque.
O caçador não ficou ali muito tempo, mas correu para sua aldeia e contou a toda a gente o que se tinha passado. “Quando apontei a minha flecha ao crocodilo fiquei cego”, disse o caçador. Toda a gente na aldeia ficou muito eufórica e, quase metade dos aldeãos, pegaram nos seus arcos e flechas e correram para a caverna.
“Vamos caçar o crocodilo” gritaram em coro. Quando os aldeãos chegaram perto da caverna viram o crocodilo no mesmo lugar onde o caçador o tinha visto, a descansar ao sol à porta da caverna. Quando começaram a apontar os seus arcos e flechas ao crocodilo, ficaram cegos. “Tirai as vossas flechas dos arcos”, disse o caçador. Quando o fizeram, os olhos dos aldeãos começaram a ver novamente.
“Nenhum homem me pode fazer mal”, gritou o crocodilo, virando-se para os aldeãos. O crocodilo saiu do seu lugar e entrou na caverna onde todos os animais o elogiaram por os ter protegido.
“Viveremos as nossas vidas na nossa aldeia”, disseram os aldeãos ao regressarem a casa desiludidos. “Aquele crocodilo ficará na caverna. Não podemos fazer nada para mudar isto”. Mas alguns jovens não ficaram muito satisfeitos. De vez em quando, um jovem corajoso tentava voltar à caverna determinado a matar o crocodilo, mas nunca o conseguiram.
“Ficai cegos com os vossos arcos e flechas,” disse o crocodilo. Naquele tempo, nem o crocodilo nem os aldeãos tinham alguma vez ouvido falar de espingardas.

segunda-feira, abril 19, 2010

Pior Surto de Cólera dos Últimos Anos em Lusaka

Em Lusaka, a capital da Zâmbia, está a assistir-se ao pior surto de Cólera dos últimos anos. São os Médicos Sem Fronteiras que o afirmam num comunicado à imprensa datado de 12 de Abril de 2010. Segundo esse comunicado, “durante as últimas cinco semanas o número de casos de Cólera subiu dramaticamente acima de 4.500, e mais de 120 pessoas perderam as suas vidas”.

Centros Provisórios de Tratamento
Neste momento, a preocupação dos Médicos Sem Fronteiras é conter a doença. Para isso criaram três centros de tratamento de Cólera (CTC) em Matero, Chawama e Kanyama. O número de casos é, de facto, alarmante. Em colaboração com o Ministério da Saúde da Zâmbia, os Médicos Sem Fronteiras trataram já 4.020 doentes desde o dia 4 de Março.
Nestes centros montaram um número elevado de tendas provisórias para facilitar o internamento e tratamento dos casos que chegam diariamente. “Na semana passada”, diz o mesmo comunicado, “assistimos ao ponto mais alto deste surto com mais de 1.054 internamentos”. Por isso, há agora alguma esperança de que o número de casos comece a diminuir.
Na semana passada fui visitar um desses CTC em Matero, uma vez que é o centro que serve a zona de Lilanda onde me encontro. Uma das responsáveis pelo CTC de Matero disse-me que não estão autorizados a falar nem a deixar ninguém visitar o centro. Depois de conversarmos um pouco, deixou-me fotografar as tendas. Certamente nos dá uma ideia das dimensões da situação e do secretismo que se criou à sua volta.

Necessidade de Água Potável e Instalações Sanitárias
A propagação da Cólera tem a ver com a qualidade da água e dos esgotos. Por isso, os Médicos Sem Fronteiras estão a fazer um grande esforço para fazer chegar água potável às populações das áreas mais pobres da cidade.
Quando falamos de Cólera na Zâmbia, não falamos nada de novo, pois ela é endémica. A situação repete-se ano após ano durante a estação da chuva. Aqui em Lilanda, o número de casos tem sido muito reduzido devido a um projecto de abastecimento de água que o Governo do Japão desenvolveu nesta área em parceria com o Governo da Zâmbia; este projecto proporciona água potável a toda esta área da cidade, abrangendo uma população de mais de 100 mil pessoas.
As zonas mais afectadas pela Cólera (e por outras doenças como a Sida, Tuberculose, etc.) são as zonas pobres da cidade; estas zonas são normalmente abandonadas pelos políticos que só aparecem em tempo de eleições. Talvez um dia o Governo se dê conta que estes são também cidadãos da Zâmbia.

segunda-feira, março 29, 2010

Ele está vivo!

Os eventos daquela madrugada do Primeiro Dia da semana mudaram tudo! A partir de agora nada seria como dantes! O sepulcro ficara vazio. Foi como que uma explosão cujo clarão continua a iluminar as vidas dos que acreditam e cujo calor incendeia os corações dos amigos de Jesus.
A desilusão e o desânimo dão lugar à esperança; o medo dá lugar ao entusiasmo e à coragem; a tristeza dá lugar à alegria; o ódio dá lugar ao perdão; a dúvida dá lugar à certeza; a morte na cruz dá lugar à vida da ressurreição! E os que se tinham escondido, aterrorizados pelos acontecimentos daquela Sexta-feira em Jerusalém, vêm agora para as ruas movidos por uma força que não é sua, mas que os impele e move em todas as direcções!
Continuamos hoje a viver os mesmos acontecimentos na fé! O fogo que ardia nos corações dos amigos de Jesus, continua a arder no meu coração! Talvez não tenha a mesma fé dos que testemunharam tudo desde o início, e às vezes o medo e a dúvida estejam presentes! Mas a alegria desta vida nova que está também em mim, deve irradiar uma esperança que só o Senhor ressuscitado pode dar.
Também eu, como as mulheres que encontraram o Senhor ressuscitado, sou convidado a ir contar aos meus irmãos que Ele está vivo e me precede nos caminhos de Lilanda (a minha Galileia!). Sim, Ele precede-me onde quer que eu vá! E eu sei que Ele está vivo!
Sim, Ele está vivo! Há muitos irmãos que continuam a ser crucificados e para quem a morte parece ter a última palavra! Mas Ele anda por aí! A sua força continua a animar muitos dos seus amigos! Por isso continuamos a acreditar na sua Boa Nova!
Vamos! Contemos aos seus irmãos! Ele está vivo!
Boa Páscoa!

quarta-feira, outubro 07, 2009

De volta a Lilanda

Caríssimos amigos e amigas,
Depois de umas férias em Portugal, aqui estou eu de volta a Lilanda, completamente recauchutado! E, embora ainda não tenha recuperado completamente do ritmo das férias, agora é só arregaçar as mangas e deitar mãos à obra.
Durante as férias encontrei-me com muitos amigos, falei com outros pelo telefone! Outros, prometi visitá-los e não consegui! Parece que, durante as férias, o tempo passa muito mais depressa e, quando damos por ela, já eram!!! Mas recordo a todos sempre com muita gratidão e amizade. Desculpem-me os que não consegui visitar!
Mas Lilanda é a minha terra prometida! Por isso, estou muito feliz por ter voltado, mesmo se encontrei desafios novos para enfrentar! A vida missionária é mesmo assim! E os vários projectos da paróquia (a escola comunitária, o programa de assistência e ajuda a doentes de Sida…) não nos dão tréguas.
A Escola Comunitária St. Joseph, é uma escola para meninos órfãos da nossa paróquia de Lilanda! Este ano temos 368 meninos e meninas a frequentar as aulas. Há tantos outros que não têm oportunidade de ir à escola! Este é um dos projectos prioritários da paróquia! Falarei dele em detalhe mais tarde num artigo que estou a preparar para publicar aqui no blogue.
O programa de assistência aos doentes de Sida é outro projecto prioritário para nós, uma vez que o número de infectados com o vírus HIV cresce dramaticamente todos os dias! Até agora temos tido sorte, pois este projecto tem vindo a ser patrocinado por algumas organizações, por intermédio da Arquidiocese de Lusaka, o que não acontece com a escola, que depende do esforço dos cristãos da paróquia e de outras pessoas de boa vontade! Também deste projecto falarei no mencionado artigo!
O meu serviço missionário, aqui em Lilanda, tem sido uma verdadeira experiência de Deus! O encontro com o pobre e o doente; o confronto diário com a precariedade da vida; a sensação de impotência perante os vários desafios com que me defronto diariamente… Tudo isto me coloca interrogações às quais só Deus pode responder! Devo dizer que tenho aprendido, com esta gente, a confiar mais em Deus e a acreditar que só ele é o Senhor da vinha, e nós, pobres trabalhadores!
Hoje mesmo visitei uma senhora muito doente! Impressionou-me, como aliás me impressiona sempre, a alegria que exprimiu ao receber a minha visita! ‘Zikomo abambo,’ dizia, ‘mwandibweretsera Yesu!’ (Obrigado padre, trouxeste-me Jesus). E deixou escapar umas lágrimas, enquanto falava comigo. Deus mostra-se assim presente no meio do pobre através da nossa presença pobre! Mas é, certamente, através da nossa pobreza que Ele quer continuar a salvar!
Ao escrever-vos estas palavras, exprimo, mais uma vez, a minha gratidão pelo apoio de todos, e continuo a pedir a vossa oração! O vosso apoio e comunhão são expressão da vossa participação na missão que é de todos nós, cristãos.
Fiquem com Deus! Eu continuo também a rezar por vocês todos.
Um abraço muito amigo!


domingo, julho 12, 2009

Amor que cura


É enfermeira e pertence ao Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria. A Ir. Cândida Figueiredo, natural de Esposende, chegou à África em Janeiro de 2008. Desde então tem-se dedicado à assistência de doentes de SIDA, na pequena clínica ‘Martin Hospice’ em Choma, uma pequena cidade do sul da Zâmbia.
Como outros centros urbanos da Zâmbia, Choma tem sido destino de muita gente vinda de todas as partes do país, à procura de uma vida melhor. Por isso, os ‘compounds’ (zonas residenciais habitadas pelos pobres!) têm crescido muito nos últimos anos. Com eles, vai crescendo também o número de seropositivos, uma realidade que se torna cada vez mais alarmante na Zâmbia.
A pequena clínica, onde trabalha a Ir. Cândida, acolhe cerca de uma dúzia de pacientes seropositivos. Estes vêm, não só dos arredores da pequena cidade de Choma, mas também das zonas rurais à sua volta. Normalmente chegam à clínica quando já não há muito a fazer para lhes melhorar a qualidade de vida. No entanto, alguns dos doentes experimentam melhorias significativas, não tanto pela acção dos medicamentos, mas pelo carinho e atenção de quem cuida deles.
É o caso do Chipo, um jovem de 17 anos, que parecia estar para morrer quando chegou à clínica. Após algumas semanas, parecia uma pessoa diferente. Algo lhe devolvera a vontade de viver. O carinho e os cuidados da Ir. Cândida deram uma esperança nova ao pequeno Chipo. “A Cândida devolveu-lhe a vida”, dizia-me uma das irmãs da sua comunidade quando lhe perguntei por ele.
A Sida continua a ser uma doença que inspira medo! Por isso, até os próprios familiares dos doentes têm dificuldade em lidar com os casos que têm na família. Na maioria dos casos, as crianças seropositivas que perderam os pais, são entregues a familiares que, muitas vezes, não cuidam bem deles e, em alguns casos, expulsam-nos de casa.
Estou a lembrar-me do pequeno Jessely que nasceu seropositivo. Tem 12 anos de idade, mas aparenta 7. Chegou à clínica de Choma há menos de dois meses. Com o tratamento, tem-se sentido melhor. Mas o pensamento de ter que voltar para casa assusta-o. “Não quero voltar para casa! Se volto, os meus tios matam-me!” “O seus olhos espelhavam o medo que lhe ia na alma”, comentava a Ir. Cândida.
Para estes jovens, como para tantos outros doentes da pequena clínica, a Ir. Cândida é muito mais que uma enfermeira. Ela é um sinal do amor misericordioso de Deus que se aproxima dos que sofrem; uma presença amiga que lhes transmite carinho, confiança, vontade de recomeçar a viver e um pouco de alegria, ao fazer-se acompanhar com frequência pela sua viola!
Quando fala dos seus doentes, a Ir. Cândida exprime um grande sentido de gratidão por ter a oportunidade de cuidar eles. Eles são, para ela, o rosto de Jesus, presente nos que sofrem. Ao falar do pequeno Jessely, dizia, “Vou ter saudades dele, é muito amoroso e transmite muita alegria, mesmo no meio do seu sofrimento!”
Fotos:
1) Ir. Cândida com senhora seropositiva na pequena clínica;
2) Com Chipo no início de tratamento;
3) Com Chipo depois de algumas semanas na clínica.

quinta-feira, junho 25, 2009

Macaco urina em cima do Presidente da Zâmbia

Rupiah Banda, presidente da Zâmbia, foi surpreendido quarta-feira, dia 24 de Junho, por um macaco descontente enquanto dava uma conferência de imprensa sobre o estado da economia da nação. O que lhe valeu foi ter bom sentido de humor! Enquanto falava, um macaco atrevido decidiu subir à árvore sob a qual o líder zambiano estava a dar a dita conferência de imprensa e, literalmente lhe urinou em cima.
É mesmo caso para dizer que a política está sempre cheia de surpresas. Até parecia uma conspiração da oposição!
A conferência de imprensa foi dada nos jardins da residência oficial do presidente onde, para além dos atrevidos macacos, vivem outros tipos de animais como antílopes e vários tipos de aves. Certamente esta acção do insigne macaco foi um grande sinal de que a liberdade de expressão chegou à residência do presidente. E Rupiah Banda nem sequer se zangou! Talvez fosse mesmo uma bênção!
O que falta saber é se o macaco quis somente pregar uma partida, ou se foi mesmo uma expressão de descontentamento pela crise económica que atravessa o país.

quarta-feira, junho 17, 2009

Missionário Comboniano Condecorado

O missionário comboniano português P. Alfredo Ribeiro Neres foi condecorado pelo Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, pela ocasião do dia 10 de Junho, Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas. O P. Alfredo Neres tem desenvolvido a sua actividade missionária no Congo, ao serviço dos mais pobres e abandonados.
A cerimónia da sua condecoração, teve lugar em Kinshasa, na Embaixada de Portugal com uma pequena celebração. Presentes estiveram o Núncio apostólico Mons. Giovanni Daniello, o Sr. Embaixador de Portugal no Congo Dr. João Perestrello e o Sr. Secretário de Estado da Justiça, Dr. João Tiago da Silveira. Estiveram também presentes a Sra. Secretária da Embaixada D. Fernanda Ramalheira e alguns missionários combonianos.
Ao Sr. Secretário de Estado da Justiça, o P. Alfredo pediu que levasse uma mensagem de agradecimento ao senhor Presidente da República; ao mesmo tempo pediu-lhe para comunicar ao Sr. Presidente um desejo seu, nomeadamente que a sua condecoração fosse “um símbolo do reconhecimento do Estado Português pelo trabalho que todos os missionários Portugueses estão a realizar no mundo”.
Para nós, combonianos mais jovens, que o tivemos como Mestre no Noviciado, o P. Alfedo tem sido sempre uma fonte de inspiração; esta condecoração é mais um estímulo para nós que, com ele, aprendemos muito a ser missionários.


Nota: na foto, o P. Alfredo com o Sr. Secretário de Estado da Justiça, Dr. João Tiago da Silveira.

segunda-feira, maio 18, 2009

Deus está onde o pobre vive

A aldeia de Nabaguu, na missão de Nzara no Sul do Sudão, fica a 50 quilómetros da missão, no coração da floresta. A viagem até lá é longa e cansativa. Depois de alguns quilómetros no caminho principal, iniciámos a nossa entrada na floresta por um carreiro estreito e que parecia não ter fim. O calor era muito intenso e a humidade via-se no ar. Depois de várias horas a pedalar por entre árvores enormes e de folhagem exuberante e verde, chegámos.
À nossa chegada encontrámos uma pequena comunidade de cristãos que nos acolheram com uma alegria e entusiasmo que me emocionaram. Sentia-me exausto da longa viagem. Mas a alegria destes cristãos, que já não viam o padre havia três anos, fez-me superar a fadiga e imediatamente os segui até ao lugar que tinham nos preparado para descansar. A alegria que aqueles cristãos simples e pobres expressavam por terem a oportunidade de celebrar a Eucaristia (a primeira vez em três anos!) era, para mim, estímulo e fonte de inspiração.
Apesar de viverem tão longe da missão, e de terem a visita to missionário tão raramente, estes cristãos continuavam a reunir-se todos os domingos para rezar e partilhar a Palavra de Deus, ajudados pelo seu catequista, Lino Mingerevuru; sinal de que o Espírito do Senhor estava aí onde eles vivem e partilham a sua fé. Aparentemente, estes cristãos vivem “perdidos” na floresta, longe de tudo e de todos; mas no meio deles encontrei sinais maravilhosos da presença do Espírito do Senhor que, ontem como hoje, continua a revelar-se nos simples e nos humildes desta terra. Com Jesus, regozijei-me no Espírito e vi com os meus próprios olhos sinais (muitos sinais!), de como Deus se revela nos pobres.
Enquanto preparávamos o programa para o dia seguinte, apresentaram-me Geanmarie Kerekpiogbe (o significado do sobrenome é: “muito-má-morte”) que pedia para ser baptizado. Carregava sempre tudo o que possuía: uma pequena panela, um cobertor e a bengala que o ajudava a caminhar na sua velhice. “Não posso deixar as minhas coisas em casa” disse com resignação. “É que na volta posso não encontrar nada!”, acrescentou.
O encontro com este ancião abriu-me os olhos para a realidade dos pobres e humildes na sua relação com Deus. Enquanto a minha preocupação era se ele sabia o catecismo, ou se sabia rezar, ele surpreendeu-me com estas palavras, que só podem brotar do coração de alguém a quem o Senhor se revela pessoalmente: “Barani, rogo gi sende re mi adu ni boro rungo; mi naida ka zio batisimo ka bata be rungo ariyo.” (Padre, fui um pobre nesta terra; quero ser baptizado para me salvar da pobreza no Céu).
Fiquei sem palavras. A fé deste ancião ajudou-me a perceber que Deus não se preocupa se sabemos ou não as leis, ou se sabemos ou não dizer umas orações. Ajudou-me também a encontrar Deus no encontro com o pobre; aí, onde o pobre vive, Deus vive também. O encontro com o velho Geanmarie, como tantos outros encontros que vou tendo todos os dias, ajudou-me a perceber que Deus se revela nos pobres e humildes, que por sua vez nos revelam ‘coisas’ que ‘os sábios e os inteligentes’ tem dificuldade em entender.

quinta-feira, maio 14, 2009

A Cadeira da diferença

Deitado na cama, no seu quarto pequeno e com pouca luz, Victor Kambanje esperava-nos com ansiedade. Entrámos, um a um, e cumprimentámo-lo, ao que ele respondeu com um sorriso. Passa o seu tempo naquele quartito, contando as horas e os dias, sonhando com a possibilidade de um dia voltar a ver o sol!
Começou a ficar limitado ao espaço do seu quarto quando uma doença degenerativa lhe atrofiou os músculos e os nervos, deixando-o paralisado. Tudo começou aos três anos de idade. Durante muitos anos foi capaz de ir à escola e até encontrou um emprego. Mas a doença foi progredindo. Agora, aos 32 anos de idade, não se mexe.
Vive com os pais, velhinhos, que procuram cuidar dele o melhor que podem, mas também eles com muitas limitações por causa da idade e da situação de pobreza em que vivem. Por isso, sair de casa, para o Victor, continua a ser um sonho. Mas continua a sonhar! ‘Se pelo menos tivesse uma cadeira de rodas!’, dizia ele com as lágrimas nos olhos.
Em casa do Victor não se fala de crise financeira mundial! Não se fala de Companhias Multinacionais que vão à falência nem dos milhões de dólares que os governos investem para as salvar da banca rota! Não se fala dos grandes bancos que provocaram esta crise por causa da ganância e da incompetência dos que os dirigem! O Victor, só quer uma cadeira de rodas! Sim, porque aqui, a crise já chegou há muitos anos! Aquela de que se fala agora só veio agravar a situação dos pobres como o Victor, que vivem abaixo do limiar da pobreza.
Voltando à cadeira de rodas! A vida do Victor mudou no dia em que lhe levámos uma velha cadeira de rodas que tínhamos na paróquia, que já tinha sido utilizada por outros doentes pobres; eu nem sabia da existência dessa cadeira! Ao vê-la, o Victor deixou escapar mais umas lágrimas dos olhos; desta vez, de alegria. Os seus olhos irradiavam luz.
O Victor mostrava agora uma alegria enorme! Não foi um Mercedes que recebeu, nem sequer uma bicicleta de montanha! Foi muito mais do que isso. Agora tem a possibilidade de ver o sol, pois os seus pais sempre serão capazes de o ‘empurrar’ para fora. Já não tem que ficar no seu quarto pequeno e com pouca luz todos os dias. Vê as pessoas passar na rua, pode cumprimentá-las, conversar um pouco. E mais… agora pode ver o sol. De repente, o seu sonho tornou-se realidade. A velha cadeira de rodas, esquecida nas arrumações da paróquia, veio dar nova vida à vida do Victor. Há pequenas coisas que podem fazer a diferença. A velha cadeira de rodas da paróquia fez a diferença!

domingo, maio 03, 2009

Preciso de ti

Hoje vi uma criança
Que, olhando para mim,
Parecia pedir-me algo
Que eu não podia dar!

Olhei-a nos seus olhos suplicantes,
E baixei-me para lhe tocar.
Chorei porque não tinha nada.
E ela,
Com seu olhar penetrante
Parecia dizer-me: Obrigado!

Porquê, Senhor? Perguntei-me.
Que mal fez esta criança
Para que carregue sobre si
O peso da guerra
Que os adultos fazem e não ela?

Por momentos perguntei-me:
“Onde estás Senhor?”
E eu, que posso fazer?

De repente senti
Que aí,
Na pessoa da criança,
Tu me falavas Senhor.

Olhando-a de novo
Ao despedir-me,
Parecia dizer-me:
“Não vás,
Que eu preciso de ti.”

Foi então,
Que eu senti
Que me chamavas de novo,
Senhor.

Horácio

terça-feira, março 10, 2009

Vinde e vede!

Na aldeia todos me chamam Joana. E toda a gente fala de mim, ultimamente. Falam com razão, porque ultimamente tenho feito um monte de disparates na minha vida.
Às vezes dou comigo a matutar; eu sei que há tanta gente que faz muito mais disparates do que eu; e muito maiores. Mas entre o meu povo, é suficiente nascer mulher para deixar de se ter direitos. Nós não contamos para nada. É isso mesmo! Não contamos mesmo para nada! É preciso ter mesmo pouca sorte para se nascer mulher!
Mas hoje estou muito feliz. Há dias tinha ido a casa do carpinteiro cá da aldeia – Jesus, creio que o conhecem – para me vir arranjar a porta da minha casita que estava completamente estragada. Jesus veio concertá-la esta manhã.
Com ele vieram também dois jovens que o acompanhavam. Ao princípio pensei que fossem seus trabalhadores. Mas não trabalhavam. Não faziam outra coisa que olhar para Jesus enquanto trabalhava. Para Jesus e para mim!
De facto, dava gosto olhar para Jesus e vê-lo trabalhar. O modo como ele tratava a madeira, o carinho com que martelava os pregos (é que também se podem martelar pregos com carinho, sabiam?). Eu nunca tinha visto ninguém trabalhar assim. Jesus trabalhava como se estivesse a relacionar-se com a madeira e com as ferramentas. Estávamos todos pasmados!
Um dos jovens que tinha vindo com Jesus olhou à sua volta por toda a minha casa como se estivesse à procura de alguma coisa, e veio poisar o seu olhar sobre mim. Fiquei corada. Pensei que ele tivesse sido atraído pela minha maneira de vestir provocadora, e estivesse a olhar-me com segundas intenções! Eu sempre penso isso de todos os homens que me olham! Mas o seu olhar era diferente.
De Jesus eu já tinha ouvido falar muito durante o período que ele esteve ausente da aldeia. Diziam que ele tinha ido estudar as Escritura e que se tinha tornado num homem muito estranho. Mas ao ver este jovem olhar para mim desta maneira, como quem estava grandemente preocupado comigo, comecei a pensar que talvez ele fosse um dos seguidores de Jesus, e que já tinha aprendido muito com ele.
Imaginem só! Eu que estava tão habituada a ser olhada com malícia pelos homens da aldeia! Sentia agora que havia outra maneira de ser olhada, sem interesse e sem malícia. Senti-me tão diferente! Senti uma coisa cá dentro, que parecia um fogo abrasador. Era tudo tão estranho, mas tão bom!
Um dos jovens disse-me ao ouvido, que eles tinham vindo ver Jesus porque tinham ouvido falar dele. Mas que agora estavam pasmados com o que tinham testemunhado neste primeiro dia com ele. Encontraram-no ontem e quiseram ver onde ele morava. Disse-me também que Jesus lhe dissera que se o quisessem conhecer teriam que ir e ver mais de perto como é que ele vivia. Continuamos, por alguns momentos a olhar-nos mutuamente. O outro jovem seguia cada movimento de Jesus.
Enquanto trabalhava, Jesus ia falando assim meio sozinho, “Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Eu não entendia muito bem o que ele dizia. Neste momento estava eu a dar voltas à minha cabeça para encontrar maneira de pagar pelo serviço.
Tentei dizer alguma coisa, mas Jesus interrompeu-me com um sorriso acolhedor que me penetrou o coração e me deixou completamente sem palavras.
“Agora tens uma porta nova, Joana”, disse Jesus. Eu sabia que não encontraria nada com que pudesse pagar a porta nova da minha casa, e Jesus entendeu isso. “Não te preocupes, Joana”, disse Jesus, “eu trabalho gratuitamente”.
Eu não cabia em mim de contente. Agora, a minha casa tinha uma porta nova, que era sinal da passagem por ali de alguém diferente, que tinha deixado marcas no meu coração e me tinha feito sentir profundamente acolhida.
E, mais importante do que tudo o resto, em minha casa vivia agora uma mulher diferente.
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